Houve um tempo de Alfonso e Alfonsin
De Venina e Veridiana
De Jayme e Penha
De Antonio e Marco Antonio
Hoje é o tempo de Arthur e Yasmim
Nas vozes de Arthur e de Yasmim
Ecoam os versos dos Alfonsos, das Veninas e das Penhas
Velhos desejos vestidos de desejo novo
Fragmentos dos sentidos dos avós, das bisavós
Restos de desejo desejado
Heranças
Quando os ouço, dizem-me:
Estudar, trabalhar, casar, ter filhos
Falar bem o Português
E também falar Inglês e Mandarim
Ler os clássicos, os filósofos,
Não ter preconceitos: ler também a Veja, a Piauí, a Folha de São
Paulo...
A Caras, não fica bem!
Não poluir e não fumar
Malhar, correr e saber fazer Yoga
Lavar as mãos antes e escovar os dentes após comer
Não xingar nos jogos de futebol
Rir baixo para que o visinho não perceba que é infeliz
Acreditam na felicidade em forma de mala
Enchem-na, carregam-na
Tornam-se reféns dela.
Que desejo é esse que cede, ao dever, o seu lugar?
Quero o desejo ardido
O desejo filho da falta
O desejo que não se dobre
Que não se submeta
O desejo que se permita trocar de objeto
E que se assuma inconstante, variante, vacilante
Assumidamente insaciável
Desejo fórmula de Química Inorgânica
Que se vá!
Desejo bula de remédio
Que se vá!
Desejo controlado e medido
Que se vá!
Quero o desejo livre da verdade
Livre da vontade aprendida
Livre do olho que não vê e da boca que não fala
Quero o desejo puro
Flecha disparada que perde o alvo
Traça um arco
E goza.
Icaraí – 04/10/2011
Itaipuaçu – 25/10 –
07/11 – 12/12/2011
Pensar é Transgredir
"Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto. Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores". (Lya Luft)
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
As cidades in - visíveis
Há muitas cidades em mim
Cidade homem
Cidade mulher
Cidades de Ítalo Calvino
... de São João
... de São Sebastião do Rio de Janeiro
Algumas têm cheiro doce quando me tocam
Aninham-se bem dentro de mim
Encaixam-se
Outras irritam os meus olhos e me arranham
Arrepiam-me a pele
Explodem-se
Enquanto eu, viajante, passeio.
Icaraí –
04; 07; 16; 25/10/2011
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Antonio Carlos Borges
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Eu faço calendários
com pedrinhas brancas
a representarem Setembros
Equinócios vários
Assinalo dias extraordinários
E quase todos são invenções minhas.
Eu faço dicionários
com folhas e flores
Pétalas representam mentiras
com sentidos vários
Espinhos de rosa nos motivos extraordinários
E em quase todos uso lindas cores.
Eu leio histórias
que escrevo com estrelas
Vejo-as no céu
e invento-as sempre belas
como as memórias
do que nunca aconteceu.
com pedrinhas brancas
a representarem Setembros
Equinócios vários
Assinalo dias extraordinários
E quase todos são invenções minhas.
Eu faço dicionários
com folhas e flores
Pétalas representam mentiras
com sentidos vários
Espinhos de rosa nos motivos extraordinários
E em quase todos uso lindas cores.
Eu leio histórias
que escrevo com estrelas
Vejo-as no céu
e invento-as sempre belas
como as memórias
do que nunca aconteceu.
Chocolate
Comendo chocolate e pensando em você,
Derretendo em minha boca,
Lambuzando meus dedos,
Deixando gosto doce de prazer.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Sete Estrelas
Eu sou a música da gente quando nua e crua
Escorro do nariz do pobre quando ele se assua
Sou Carolina na janela desejando a rua...
Com a solitude eu ando acompanhado
Cada virtude minha é um pecado
Varejeira come lixo feito creme chantili
E que mistério tem aí?
E qual lição que eu aprendi?
Sou o cachorro na viela cobiçando a lua
Sou o vermelho da donzela quando ela menstrua
O amassado na baixela feito com gazua...
A solitude eu quis por companheira
Toda mentira minha é verdadeira
Trepadeira, borda folha feito ponto macramé:
É um mistério de se ver
E uma lição para se aprender
- Pior que a morte é desviver
Varejeira faz zoeira
No monturo do meu coração
Sete estrelas eu quisera
Sete vezes azuis sentinelas do meu violão
Eu canto a lágrima e o sal que o triste chora e sua
Eu sou a fome que há na santa quando ela jejua
O grito doido na garganta de uma cacatua...
Varejeira come lixo feito creme chantili
E que mistério tem aí?
E qual lição que eu aprendi?
Sou a paixão que faz sequela quando pega e encrua
Eu sou o monstro da lagoa quando ele flutua
Se tu disser que é minha, eu digo que é a tua...
Trepadeira borda folha feito ponto macramé
É um mistério de se ver
E uma lição pra se aprender
- Pior que a morte é desviver
Trepadeira tece esteira
Nas paredes do meu coração:
Sete estrelas benfazejas
Sete vezes irmãs sentinelas do meu violão.
(Aldir Blanc)
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Aldir Blanc
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Nas Profundezas da Alma Humana
Bela entrevista com a maravilhosa escritora Lya Luft. Imperdível!!!!
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110425/not_imp710389,0.php
Que horror é o mundo!”. O autor destas palavras, o escritor argentino Ernesto Sábato, morreu neste sábado de madrugada aos 99 anos de idade. No dia 24 de junho teria completado um século de existência.
domingo, 1 de maio de 2011
Nada mais será como antes
Não sei exatamente quando tudo começou — isso tudo aconteceu há muito tempo —, mas talvez o primeiro indício de que as coisas iam mesmo degringolar tenha sido quando o Kri virou Crunch. A princípio, ninguém se importou muito com isso, todos andavam ocupados com outras coisas que pensavam ser mais importantes, mas quando — anos depois — o Lollo virou Milky Bar, foi aí que todos viram que a situação não tinha mais volta, e que nada mais seria como antes.
terça-feira, 26 de abril de 2011
Síncope

Intervalar
Como o momento se liga ao devir
Quero estar na coma que precede o tom
No vão das coisas que vão
Antonio Carlos Borges Campos
26/04/2011
Icaraí
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segunda-feira, 18 de abril de 2011
Negro

Acho que o fundo é negro...
ou Dark, como preferirem
Eu preciso do fundo negro para ver a luz que emerge.
Agora sim: Fiat Lux!
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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Quem é ela?
Ali está ela!
Em suas mãos de Ana
eu vejo ouro e lataDe sua voz de Nanda
ouço o conto da Marta
Da Marta Maria Rosa
da rua,
que no cabelo prata,
traz a marca da lua
Será que ela é feita de Anas
e Martas
e Marias
e Nandas
e Rosas que perfumam e queimam em chama?
E quando a Marta se deita,
com quantas Anas se encontra?
Com quantas Rosas se
arranha?
Itaipuaçu – 24/06/2010
Nierói - 07/10/2011
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Autocrítica
Às vezes gosto dos meus versosÀs vezes não
Às vezes eles parecem
pensamentos enfeitados
Às vezes gosto
Às vezes não
Itaipuaçu – 21/06/2010
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O passeio

Há um momento em que já não se sabe mais de qual ponta da guia parte o comando...
...seguimos guia(n)do.
Icaraí, 22 de fevereiro de 2011
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sexta-feira, 2 de julho de 2010
Desato
É preciso fritar o arroz bastante antes de jogar água fervendo.
E não pode mexer jamais depois de a água ser posta.
O alho deve fritar no óleo junto com o arroz.
Coisas que eu sei e que não. Eu sei muitas coisas.
Faxina por exemplo. Sei limpar uma casa de tal modo
Que não sobra um canto que não tenha sido tocado
Por minhas mãos.
Depois vou sujando. Com muito gosto.
Deixo peças na sala e louças sujas na pia.
Não na mesma hora mas um pouco
Bastante depois volto limpando.
Assim me faço.
Nos objetos que me acompanham.
Gosto de andar nas ruas e comprar coisas
Que vão se arrumando em torno de mim.
Tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas.
Uma camada de livros outra de sapatos.
Tem a camada de plantas. E toalhas de rosto.
Tenho camadas de cosméticos e de adereços.
Uma camada de nomes e de coisas que vejo.
Tudo ordenado ao meu redor. Em forma de corpo.
Um corpo que me sustenta quando o meu próprio me falta.
Cadeiras são meus ossos. Sapatos são meus braços.
Torneiras em meus poros. Paredes como roupas de inverno.
(Quando toca música em minha casa sai do umbigo)
Descanso recostada nas paredes da casa
Que me guardam como um abraço.
Me abraço quando me derramo na sala.
E na cozinha. Em geral adormeço no quarto.
Tudo em minha casa tem existência.
Todas as coisas significo.
Com os olhos. Ou com as mãos.
Minha casa tem silêncios
Que ás vezes ouço. Em meu corpo
Tem silêncios maiores ainda.
Que às vezes ouço. E faço poemas.
Faço poemas dos silêncios que ouço.
(Viviane Mosé)
E não pode mexer jamais depois de a água ser posta.
O alho deve fritar no óleo junto com o arroz.
Coisas que eu sei e que não. Eu sei muitas coisas.
Faxina por exemplo. Sei limpar uma casa de tal modo
Que não sobra um canto que não tenha sido tocado
Por minhas mãos.
Depois vou sujando. Com muito gosto.
Deixo peças na sala e louças sujas na pia.
Não na mesma hora mas um pouco
Bastante depois volto limpando.
Assim me faço.
Nos objetos que me acompanham.
Gosto de andar nas ruas e comprar coisas
Que vão se arrumando em torno de mim.
Tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas.
Uma camada de livros outra de sapatos.
Tem a camada de plantas. E toalhas de rosto.
Tenho camadas de cosméticos e de adereços.
Uma camada de nomes e de coisas que vejo.
Tudo ordenado ao meu redor. Em forma de corpo.
Um corpo que me sustenta quando o meu próprio me falta.
Cadeiras são meus ossos. Sapatos são meus braços.
Torneiras em meus poros. Paredes como roupas de inverno.
(Quando toca música em minha casa sai do umbigo)
Descanso recostada nas paredes da casa
Que me guardam como um abraço.
Me abraço quando me derramo na sala.
E na cozinha. Em geral adormeço no quarto.
Tudo em minha casa tem existência.
Todas as coisas significo.
Com os olhos. Ou com as mãos.
Minha casa tem silêncios
Que ás vezes ouço. Em meu corpo
Tem silêncios maiores ainda.
Que às vezes ouço. E faço poemas.
Faço poemas dos silêncios que ouço.
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Viviane Mosé
Lágrima
A maioria das doenças
Que as pessoas têm
São poemas presos
Palavra boa é palavra líquida
Escorrendo em estado de lágrima
Lágrima é dor derretida.
(Viviane Mosé)
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Viviane Mosé
O haver
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo- Perdoai-os!
porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
(Vinícius de Moraes)
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Vinícius de Moraes
Eu e o outro
Eu existo,
fora de mim e por toda parte do mundo;
não há uma polegada sequer de meu caminho
que não se insinue num caminho alheio.
(Simone de Beauvoir)
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Simone de Beauvoir
Fases
Minha vida... se divide em três fases.
Na primeira,
meu mundo era do tamanho do universo e era habitado por deuses,
verdadeiros e absolutos.
Na segunda fase meu mundo encolheu,
ficou mais modesto e passou a ser habitado por heróis revolucionários
que portavam armas e cantavam canções de transformar o mundo.
Na terceira fase,
mortos os deuses,
mortos os heróis,
mortas as verdades e os absolutos,
meu mundo se encolheu ainda mais
e chegou não à sua verdade final
mas à sua beleza final:
ficou belo e efêmero como uma jabuticabeira florida.
(Rubem Alves)
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Rubem Alves
Felicidade
A felicidade é um susto.
Chega na calada da noite, na fala do dia, no improviso das horas.
Chega sem chegar, insinua mais que propõe...
Felicidade é animal arisco.
Tem que ser admirada à distância porque não aceita a jaula que preparamos para ela.
Vê-la solta e livre no campo,
correndo com sua velocidade tão elegante é uma sublime forma de possuí-la.
(Pe. Fábio de Melo)
Chega na calada da noite, na fala do dia, no improviso das horas.
Chega sem chegar, insinua mais que propõe...
Felicidade é animal arisco.
Tem que ser admirada à distância porque não aceita a jaula que preparamos para ela.
Vê-la solta e livre no campo,
correndo com sua velocidade tão elegante é uma sublime forma de possuí-la.
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Pe. Fábio de Melo
Parada cardíaca
Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.
(Paulo Leminsk)
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Paulo Leminsk
Desperta teus sentidos
para que não percas
tudo de belo e formoso
que te cercas.
Apaga a cinza de tua vida
e acenda as cores
que carrega dentro de ti.
(Plablo Picasso)
para que não percas
tudo de belo e formoso
que te cercas.
Apaga a cinza de tua vida
e acenda as cores
que carrega dentro de ti.
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Pablo Picasso
Renovação
Sim, é verdade,
estou feliz
mas isso não significa
que não deva
ohar pros lados
e que precise
acordar todo dia à mesma hora
sim, a princípio nada me falta
mas não preciso viver em função disso
deixar de querer um pouco mais
e trocar os meus desejos
por outros que não lembro agora
sim, que me conste, eu estou bem
mas o espelho não é o mesmo todo dia
já não gosto tanto assim dos meus desenhos
e hoje não vou comprar morangos
e sim abacates, uvas e amoras
sim, pra que negar, estou alegre
mas não vou me conformar com calmantes
nem me embriagar de satisfação
não quero a morte lenta, exijo a renovação.
(Martha Medeiros)
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Martha Medeiros
Falta
Se só me faltassem os outros, vá,
um homem se consola mais ou menos das pessoas que perde,
mas falto eu mesmo,
e essa lacuna é tudo. (Machado de Assis)
Amar o inútil
É preciso amar o inútil.
Criar pombos sem pensar em comê-los,
plantar roseiras sem pensar em colher rosas,
escrever sem pensar em publicar,
fazer coisas assim, sem esperar nada em troca.
A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta,
mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas da vida.
A música. Este céu que nem promete chuva.
Aquela estrelinha nascendo ali... está vendo aquela estrelinha?
Há milênios não tem feito nada, não guiou os reis magos,
nem os pastores, nem os marinheiros perdidos... apenas brilha.
Ninguém repara nela porque é uma estrela inútil.
Pois é preciso amar o inútil porque no inútil está a beleza.
plantar roseiras sem pensar em colher rosas,
escrever sem pensar em publicar,
fazer coisas assim, sem esperar nada em troca.
A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta,
mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas da vida.
A música. Este céu que nem promete chuva.
Aquela estrelinha nascendo ali... está vendo aquela estrelinha?
Há milênios não tem feito nada, não guiou os reis magos,
nem os pastores, nem os marinheiros perdidos... apenas brilha.
Ninguém repara nela porque é uma estrela inútil.
Pois é preciso amar o inútil porque no inútil está a beleza.
(Lygia Fagundes Telles)
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Lygia Fagundes Telles
A viagem
A viagem não acaba nunca.Só os viajantes acabam.
E mesmo estes podem prolongar-se em memória,
em lembrança, em narrativa.
Quando o visitante sentou na areia da praia e disse:
“Não há mais o que ver”,
saiba que não era assim.
O fim de uma viagem é apenas o começo de outra.
É preciso ver o que não foi visto,
ver outra vez o que se viu já,
ver na primavera o que se vira no verão,
ver de dia o que se viu de noite,
com o sol onde primeiramente a chuva caía,
ver a seara verde, o fruto maduro,
a pedra que mudou de lugar,
a sombra que aqui não estava.
É preciso voltar aos passos que foram dados,
para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles.
É preciso recomeçar a viagem.
Sempre. (José Saramago)
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José Saramago
Amor que atingiu sabedoria
Quanto mais envelhecia,
quanto mais insípidas me pareciam as pequenas satisfações que a vida me dava,
tanto mais claramente compreendia
onde eu deveria procurar a fonte das alegrias da vida.
Aprendi que ser amado não é nada, enquanto amar é tudo.
O dinheiro não era nada, o poder não era nada.
Vi tanta gente que tinha dinheiro e poder, e mesmo assim era infeliz.
A beleza não era nada.
Vi homens e mulheres belos, infelizes,
apesar de sua beleza.
Também a saúde não contava tanto assim.
Cada um tem a saúde que sente.
Havia doentes cheios de vontade de viver
e havia sadios que definhavam
angustiados pelo medo de sofrer.
A felicidade é amor, só isto.
Feliz é quem sabe amar.
Feliz é quem pode amar muito.
Mas amar e desejar não é a mesma coisa.
O amor é o desejo que atingiu a sabedoria.
O amor não quer possuir.
O amor quer somente amar.
quanto mais insípidas me pareciam as pequenas satisfações que a vida me dava,
tanto mais claramente compreendia
onde eu deveria procurar a fonte das alegrias da vida.
Aprendi que ser amado não é nada, enquanto amar é tudo.
O dinheiro não era nada, o poder não era nada.
Vi tanta gente que tinha dinheiro e poder, e mesmo assim era infeliz.
A beleza não era nada.
Vi homens e mulheres belos, infelizes,
apesar de sua beleza.
Também a saúde não contava tanto assim.
Cada um tem a saúde que sente.
Havia doentes cheios de vontade de viver
e havia sadios que definhavam
angustiados pelo medo de sofrer.
A felicidade é amor, só isto.
Feliz é quem sabe amar.
Feliz é quem pode amar muito.
Mas amar e desejar não é a mesma coisa.
O amor é o desejo que atingiu a sabedoria.
O amor não quer possuir.
O amor quer somente amar.
(Hermann Heese)
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Hermann Heese
Última página
Mais uma vez o tempo me assusta.
Passa afobado pelo meu dia,
atropela minha hora,
despreza minha agenda.
Corre prepotente a disputar lugar com a ventania.
O tempo envelhece e não se emenda.
Deveria haver algum decreto que obrigasse o tempo a desacelerar e a respeitar meu projeto.
Só assim, eu daria contados livros que vão se empilhando,
das melodias que estão me aguardando,
das saudades que venho sentindo,
das verdades que eu ando mentindo,
das promessas que venho esquecendo,
dos impulsos que sigo contendo,
dos prazeres que chegam partindo,
dos receios que partem, voltando.
Agora, que redijo a página final,
percebo o tanto de caminho percorrido ao impulso da hora que vai me acelerando.
Apesar do tempo e sua pressa desleal,
agradeço a Deus por ter vivido,
amanhecer e continuar teimando.
(Flora Figueiredo)
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Flora Figueiredo
Eu
Eu? Eu não sou somente boa.
Sou uma pessoa muito bonita.
Generosa e linda – e quem aguentar, aguentou.
Como prêmio, terá meu amor.
Saberá da minha verdade.
Dará boas gargalhadas.
Mas terá que suportar uma boa dose daquilo que sinto.
Pois, apesar de tudo ser diversão, nada é simples.
Nada é pouco quando o mundo é meu.
(Fernanda Young)
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Fernanda Young
Auto-retrato
Eu gosto de carinho violento. De falar. De estar certa.
De quem entende o que eu digo. De quem escuta o que eu penso.
Da minha prole. Dos meus discos. Dos meus livros.
Dos meus cachorros. Dos Stones. Do Rock Natural.
Da minha solidãozinha. Dos meus blues. Do meu sofá vermelho.
Da minha casa. Do meu umbigo. De unhas cor de carmim.
De homem que sabe ser homem. De noites em claro e dias em branco. De chuva e de sol.
Eu guardo as minhas rejeições em vidrinhos rotulados com o nome deles.
Eu sou mole demais por dentro pra deixar todo mundo ver.
Eu deixo pra quem eu acho que pode comigo.
Ninguém sabe.
Mas eu tenho coração de moça.
De quem entende o que eu digo. De quem escuta o que eu penso.
Da minha prole. Dos meus discos. Dos meus livros.
Dos meus cachorros. Dos Stones. Do Rock Natural.
Da minha solidãozinha. Dos meus blues. Do meu sofá vermelho.
Da minha casa. Do meu umbigo. De unhas cor de carmim.
De homem que sabe ser homem. De noites em claro e dias em branco. De chuva e de sol.
Eu guardo as minhas rejeições em vidrinhos rotulados com o nome deles.
Eu sou mole demais por dentro pra deixar todo mundo ver.
Eu deixo pra quem eu acho que pode comigo.
Ninguém sabe.
Mas eu tenho coração de moça.
(Fernanda Young)
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Fernanda Young
Eu lavo minhas mãos no fogo
Esquecemos com facilidade o que não queremos compreender.
Acreditava que as árvores só cresciam de noite. Não mudei de opinião.
Os homens crescem dentro das árvores. A noite conversa com os sapatos.
Falo comigo, o que não significa que me escuto. Ainda não conheço as palavras.
Conheço o lodo do tanque. Não conheço o encanamento dos relâmpagos no morro.
Complico minha vida para a morte ter o que pensar. Assim a entretenho.
O frio quando chega de assalto torna as pessoas desajeitadas, deselegantes.
É como se elas usassem uma roupa em cima da outra, sem muita concordância.
Parece que estamos com casacos alugados. Com pijama por baixo.
No inverno, adivinho as mulheres pelo rumor das pedras.
Não peço licença para pressentir. Elas enredam a água, acalmam o espaço.
Ao ouvi-las, espero minha chegada. Em toda mulher, eu me devolvo. Não tive luxo.
Tudo o que economizei de som foi consumido pelo vento. O fogo é a permanência do vento.
A lembrança tem uma cicatriz que não fecha pela insistência.
A insistência é a pressa de se ver acabado. A pressa é curiosidade de não se acabar.
Eu não cicatrizei minha vida.
Não me culpo por me desperdiçar, muito menos procuro desviver o que vivi para estar de paz com a memória.
Não há paz na memória. A alegria é insônia.
De vez em quando, sento no balcão para imitar uma janela.
Eu me perpetuo ao me consumir.
Quem se adia não chega nem ao seu começo.
A ferida é a altura da árvore, do homem dentro da árvore, que só cresce de noite.
Os homens crescem dentro das árvores. A noite conversa com os sapatos.
Falo comigo, o que não significa que me escuto. Ainda não conheço as palavras.
Conheço o lodo do tanque. Não conheço o encanamento dos relâmpagos no morro.
Complico minha vida para a morte ter o que pensar. Assim a entretenho.
O frio quando chega de assalto torna as pessoas desajeitadas, deselegantes.
É como se elas usassem uma roupa em cima da outra, sem muita concordância.
Parece que estamos com casacos alugados. Com pijama por baixo.
No inverno, adivinho as mulheres pelo rumor das pedras.
Não peço licença para pressentir. Elas enredam a água, acalmam o espaço.
Ao ouvi-las, espero minha chegada. Em toda mulher, eu me devolvo. Não tive luxo.
Tudo o que economizei de som foi consumido pelo vento. O fogo é a permanência do vento.
A lembrança tem uma cicatriz que não fecha pela insistência.
A insistência é a pressa de se ver acabado. A pressa é curiosidade de não se acabar.
Eu não cicatrizei minha vida.
Não me culpo por me desperdiçar, muito menos procuro desviver o que vivi para estar de paz com a memória.
Não há paz na memória. A alegria é insônia.
De vez em quando, sento no balcão para imitar uma janela.
Eu me perpetuo ao me consumir.
Quem se adia não chega nem ao seu começo.
A ferida é a altura da árvore, do homem dentro da árvore, que só cresce de noite.
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Fabrício Carpinejar
Solidão
namorar, passear ou fazer sexo...
Isto é carência.
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência
de entes queridos que não podem mais voltar...
Isto é saudade.
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe,
às vezes, para realinhar os pensamentos...
Isto é equilíbrio.
Solidão não é o claustro involuntário
que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida...
Isto é circunstância.
Solidão é muito mais do que isso.
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos
e procuramos em vão pela nossa ALMA!!!
de entes queridos que não podem mais voltar...
Isto é saudade.
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe,
às vezes, para realinhar os pensamentos...
Isto é equilíbrio.
Solidão não é o claustro involuntário
que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida...
Isto é circunstância.
Solidão é muito mais do que isso.
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos
e procuramos em vão pela nossa ALMA!!!
(Chico Buarque)
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Chico Buarque
De que são feitos os dias?
silenciosas lembranças.
Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades, inatuais esperanças.
De loucuras, de crime,
de pecados,de glórias,
do medo que encadeia todas essas mudanças.
Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces e em sinistras alianças.
(Cecília Meirelles)
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Cecília Meirelles
O amor na vida real
Sempre acho que namoro, casamento, romance, tem começo, meio e fim.Como tudo na vida. Detesto quando escuto aquela conversa:
-Ah,terminei o namoro...
-Nossa, estavam juntos há tanto tempo.....
-Cinco anos...que pena...acabou....
-Ah,terminei o namoro...
-Nossa, estavam juntos há tanto tempo.....
-Cinco anos...que pena...acabou....
-É...não deu certo...'
Claro que deu! Deu certo durante cinco anos, só que acabou.
E o bom da vida, é que você pode ter vários amores.
Não acredito em pessoas que se complementam. Acredito em pessoas que se somam.
Às vezes voce não consegue nem dar cem por cento de voce para voce mesmo,
como cobrar cem por cento do outro?
E não temos essa coisa completa.
Às vezes ela é fiel, mas é devagar na cama.
Às vezes ele é carinhoso, mas não é fiel.
Às vezes ele é atencioso, mas não é trabalhador.
Às vezes ela é muito bonita, mas não é sensível.
Tudo junto, não vamos encontrar.
Perceba qual o aspecto mais importante para você e invista nele.
Pele é um bicho traiçoeiro.
Quando você tem pele com alguém, pode ser o papai com mamãe mais básico que é uma delícia. E as vezes você tem aquele sexo acrobata, mas que não te impressiona...
Acho que o beijo é importante... e se o beijo bate... se joga...
se não bate... mais um Martini, por favor... e vá dar uma volta.
Se ele ou ela não te quer mais, não force a barra.
O outro tem o direito de não te querer.
Não brigue, não ligue, não dê pití.
Se a pessoa tá com dúvidas, problema dela, cabe a você esperar.... ou não.
Existe gente que precisa da ausência para querer a presença.
O ser humano não é absoluto.
Ele titubeia, tem dúvidas e medos, mas se a pessoa REALMENTE gostar, ela volta.
Nada de drama. Que graça tem alguém do seu lado sob pressão?
O legal é alguém que está com você, só por você. E vice versa.
Não fique com alguém por pena. Ou por medo da solidão.
Nascemos sós. Morremos sós.
Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado.
E quando você acorda, a primeira impressão é sempre sua, seu olhar, seu pensamento.
Tem gente que pula de um romance para o outro.
Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia?
Gostar dói. Muitas vezes você vai sentir raiva, ciúmes, ódio, frustração..... Faz parte.
Você convive com outro ser, um outro mundo, um outro universo.
E nem sempre as coisas são como você gostaria que fosse....
A pior coisa é gente que tem medo de se envolver.
Se alguém vier com este papo, corra, afinal você não é terapeuta.
Se não quer se envolver, namore uma planta. É mais previsível.
Na vida e no amor, não temos garantias.
Nem toda pessoa que te convida para sair é para casar.
Nem todo beijo é para romancear.
E nem todo sexo bom é para descartar...
Ou se apaixonar... Ou se culpar...
Enfim... quem disse que ser adulto é fácil ?????
(Arnaldo Jabor)
Claro que deu! Deu certo durante cinco anos, só que acabou.
E o bom da vida, é que você pode ter vários amores.
Não acredito em pessoas que se complementam. Acredito em pessoas que se somam.
Às vezes voce não consegue nem dar cem por cento de voce para voce mesmo,
como cobrar cem por cento do outro?
E não temos essa coisa completa.
Às vezes ela é fiel, mas é devagar na cama.
Às vezes ele é carinhoso, mas não é fiel.
Às vezes ele é atencioso, mas não é trabalhador.
Às vezes ela é muito bonita, mas não é sensível.
Tudo junto, não vamos encontrar.
Perceba qual o aspecto mais importante para você e invista nele.
Pele é um bicho traiçoeiro.
Quando você tem pele com alguém, pode ser o papai com mamãe mais básico que é uma delícia. E as vezes você tem aquele sexo acrobata, mas que não te impressiona...
Acho que o beijo é importante... e se o beijo bate... se joga...
se não bate... mais um Martini, por favor... e vá dar uma volta.
Se ele ou ela não te quer mais, não force a barra.
O outro tem o direito de não te querer.
Não brigue, não ligue, não dê pití.
Se a pessoa tá com dúvidas, problema dela, cabe a você esperar.... ou não.
Existe gente que precisa da ausência para querer a presença.
O ser humano não é absoluto.
Ele titubeia, tem dúvidas e medos, mas se a pessoa REALMENTE gostar, ela volta.
Nada de drama. Que graça tem alguém do seu lado sob pressão?
O legal é alguém que está com você, só por você. E vice versa.
Não fique com alguém por pena. Ou por medo da solidão.
Nascemos sós. Morremos sós.
Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado.
E quando você acorda, a primeira impressão é sempre sua, seu olhar, seu pensamento.
Tem gente que pula de um romance para o outro.
Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia?
Gostar dói. Muitas vezes você vai sentir raiva, ciúmes, ódio, frustração..... Faz parte.
Você convive com outro ser, um outro mundo, um outro universo.
E nem sempre as coisas são como você gostaria que fosse....
A pior coisa é gente que tem medo de se envolver.
Se alguém vier com este papo, corra, afinal você não é terapeuta.
Se não quer se envolver, namore uma planta. É mais previsível.
Na vida e no amor, não temos garantias.
Nem toda pessoa que te convida para sair é para casar.
Nem todo beijo é para romancear.
E nem todo sexo bom é para descartar...
Ou se apaixonar... Ou se culpar...
Enfim... quem disse que ser adulto é fácil ?????
(Arnaldo Jabor)
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Arnaldo Jabor
Intensa
Sentir demais.
Amar quase do tamanho do amor.
Traço de nascença, uma estranha dádiva que,
durante temporadas,
pra facilitar a própria vida,
egoísmo que seja,
a gente tenta disfarçar de tudo que é maneira que aprende.
Mas não tem jeito, nunca terá,
nascer assim é irremediável,
o que é preciso é desaprender o medo.
(Ana Jácomo)
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Ana Jácomo
Um homem precisa viajar
Um homem precisa viajar.
Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV.
Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu.
Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor.
Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto.
Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto.
Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância
que nos faz ver o mundo como o imaginamos,
e não simplesmente como é ou pode ser.
Que nos faz professores e doutores do que não vimos,
quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.
Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV.
Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu.
Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor.
Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto.
Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto.
Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância
que nos faz ver o mundo como o imaginamos,
e não simplesmente como é ou pode ser.
Que nos faz professores e doutores do que não vimos,
quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.
(Amyr Klynk)
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Amyr Klynk
Que o tempo nunca leve
Que o breve
Seja de um longo pensar
Que o longo
Seja de um curto sentir
Que tudo seja leve
De tal forma
Que o tempo nunca leve!
Seja de um longo pensar
Que o longo
Seja de um curto sentir
Que tudo seja leve
De tal forma
Que o tempo nunca leve!
(Alice Ruiz)
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Alice Ruiz
Bilhete
Não o grites de cima dos telhados,
deixa em paz os passarinhos.
Deixa em paz a mim!
Se me queres, enfim,
...tem de ser bem devagarinho,
...amada,
...que a vida é breve,
...e o amor
...mais breve ainda.
(Mário Quintana)
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Mário Quintana
Dece medo
Tenho medo da dor de tua ausência
que me queima por dentro.
E da ternura eu tenho medo,
dessa beleza das noites secretas
quando chegas sempre como se fosse a única vez.
Tenho medo de que um dia queiras cessar esse rio de águas ardentes
onde mais do que os corpos
tocam-se as almas,
anjos desatinados luzindo no breu.
(Lya Luft)
que me queima por dentro.
E da ternura eu tenho medo,
dessa beleza das noites secretas
quando chegas sempre como se fosse a única vez.
Tenho medo de que um dia queiras cessar esse rio de águas ardentes
onde mais do que os corpos
tocam-se as almas,
anjos desatinados luzindo no breu.
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Lya Luft
Destruir antes que cresça...
E uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. Destruir antes que cresça.Com requintes, com sofreguidão, com textos que me vêm prontos e faces que se sobrepõem às outras. Para que não me firam, minto. E tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também. Não queria fazer mal a você. Não queria que você chorasse. Não queria cobrar absolutamente nada. Por que o Zen de repente escapa e se transforma em Sem? Sem que se consiga controlar.
(Caio Fernando Abreu)
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Caio Fernando Abreu
Poema a boca fechada
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.
Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.
Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
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José Saramago
Do príncipe ao fim
veio de tanto eu pedir
mas quando parei de esperá-lo
veio quando eu ao depená-lo
do meu sonho receio,
permiti que em vez de início ou fim
ele no meio de mim
fosse só o meio.
Não meio no sentido tático
de jeito ou de modo.
Meio no sentido de durante
de enquanto
de presente.
Quando abandonei o título futuro
definitivo da eternidade
o rótulo azarento de garantia
no departamento de intimidade,
quando abandonei o desejo
de ressarcir aquilo que perdi na antigüidade,
meu homem chegou cheio de saudade
ocupando inteiro
seu lugar de meio
sua inteira metade.
(Elisa Lucinda)
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Elisa Lucinda
Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
+
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo.
+
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
+
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa,
Antes que tudo em tudo se transforme.
(Fernando Pessoa)
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Fernando Pessoa
quinta-feira, 1 de julho de 2010
A música
A música ela me transmite hoje sensações
Como nunca senti antes.
Ela me libera de mim mesmo.
Ela me separa de mim mesmo
Como se eu me olhasse
Como se eu me percebesse de muito longe
Ao mesmo tempo ela me fortalece
E sempre após uma noite musical
A minha manhã transborda de idéias
E pensamentos corajosos.
É como se eu estivesse mergulhado
No elemento mais natural
A vida sem a música é simplesmente um erro,
Uma tarefa cansativa no exílio. (Friedrich Nietzsche)
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Friedrich Nietzsche
Disco Voador
Eu estou sempre aqui, olhando pela janela. Não vejo arranhões no céu nem discos voadores.
Os céus estão explorados, mas vazios.
Existe um biombo de ossos perto daqui. Eu acho que estou meio sangrando. Eu já sei, não precisa me dizer. Eu sou um fragmento gótico. Eu sou um castelo projetado. Eu sou um slide no meio do deserto.
Eu sempre quis ser isso mesmo. Uma adolescente nua, que nunca viu discos voadores, e que acaba capturada por um trovador de fala cinematográfica.
Eu sempre quis isso mesmo: armar hieróglifos com pedaços de tudo, restos de filmes, gestos de rua, gravações de rádio, fragmentos de tv.
Os céus estão explorados, mas vazios.
Existe um biombo de ossos perto daqui. Eu acho que estou meio sangrando. Eu já sei, não precisa me dizer. Eu sou um fragmento gótico. Eu sou um castelo projetado. Eu sou um slide no meio do deserto.
Eu sempre quis ser isso mesmo. Uma adolescente nua, que nunca viu discos voadores, e que acaba capturada por um trovador de fala cinematográfica.
Eu sempre quis isso mesmo: armar hieróglifos com pedaços de tudo, restos de filmes, gestos de rua, gravações de rádio, fragmentos de tv.
Mas eu sei que os meus lábios são transmutação de alguma coisa planetária. Quando eu beijo eu improviso mundos molhados. Aciono gametas guardados.
Eu sou a transmutação de alguma coisa eletrônica. Uma notícia de saturno esquecida, uma pulseira de temperaturas, um manequim mutilado, uma odalisca andróide que tinha uma grande dor, que improvisou com restos de cinema e com seu amor, um disco voador. (Fausto Fawcet)
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Fausto Fawcet
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo. (Adélia Prado)
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Adélia Prado
O contrário do amor
O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola. Se você fizer uma enquete entre as crianças, ouvirá também que o contrário do amor é o ódio. Elas estão erradas.
Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.
O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência?
O ódio é também uma maneira de se estar com alguém. Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: seu nome não consta mais do cadastro.
Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam.
Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente.
Para odiar alguém gastamos energia, neurônios e tempo. Odiar nos dá fios brancos no cabelo, rugas pela face e angústia no peito. Para odiar, necessitamos do objeto do ódio, necessitamos dele nem que seja para dedicar-lhe nosso rancor, nossa ira, nossa pouca sabedoria para entendê-lo e pouco humor para aturá-lo.
O ódio, se tivesse uma cor, seria vermelho, tal qual a cor do amor. Já para sermos indiferentes a alguém, precisamos do quê? De coisa alguma.
A pessoa em questão pode saltar de bung-jump, assistir aula de fraque, ganhar um Oscar ou uma prisão perpétua, estamos nem aí. Não julgamos seus atos, não observamos seus modos, não testemunhamos sua existência.
Ela não nos exige olhos, boca, coração, cérebro: nosso corpo ignora sua presença, e muito menos se dá conta de sua ausência. Não temos o número do telefone das pessoas para quem não ligamos.
A indiferença, se tivesse uma cor, seria cor da água, cor do ar, cor de nada. Uma criança nunca experimentou essa sensação: ou ela é muito amada, ou criticada pelo que apronta. Uma criança está sempre em uma das pontas da gangorra, adoração ou queixas, mas nunca é ignorada.
Só bem mais tarde, quando necessitar de uma atenção que não seja materna ou paterna, é que descobrirá que o amor e o ódio habitam o mesmo universo, enquanto que a indiferença é um exílio no deserto. (Martha Medeiros)
Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.
O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência?
O ódio é também uma maneira de se estar com alguém. Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: seu nome não consta mais do cadastro.
Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam.
Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente.
Para odiar alguém gastamos energia, neurônios e tempo. Odiar nos dá fios brancos no cabelo, rugas pela face e angústia no peito. Para odiar, necessitamos do objeto do ódio, necessitamos dele nem que seja para dedicar-lhe nosso rancor, nossa ira, nossa pouca sabedoria para entendê-lo e pouco humor para aturá-lo.
O ódio, se tivesse uma cor, seria vermelho, tal qual a cor do amor. Já para sermos indiferentes a alguém, precisamos do quê? De coisa alguma.
A pessoa em questão pode saltar de bung-jump, assistir aula de fraque, ganhar um Oscar ou uma prisão perpétua, estamos nem aí. Não julgamos seus atos, não observamos seus modos, não testemunhamos sua existência.
Ela não nos exige olhos, boca, coração, cérebro: nosso corpo ignora sua presença, e muito menos se dá conta de sua ausência. Não temos o número do telefone das pessoas para quem não ligamos.
A indiferença, se tivesse uma cor, seria cor da água, cor do ar, cor de nada. Uma criança nunca experimentou essa sensação: ou ela é muito amada, ou criticada pelo que apronta. Uma criança está sempre em uma das pontas da gangorra, adoração ou queixas, mas nunca é ignorada.
Só bem mais tarde, quando necessitar de uma atenção que não seja materna ou paterna, é que descobrirá que o amor e o ódio habitam o mesmo universo, enquanto que a indiferença é um exílio no deserto. (Martha Medeiros)
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Martha Medeiros
Os degraus
Não desça os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Para não despertar os monstros.
Não suba aos sótãos – onde
Os Deuses, por trás de suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas: fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo..
(Mário Quintana)
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Mário Quintana
Agora
Agora que agora é nunca
Agora posso recuar
Agora sinto minha tumba
Agora o peito a retumbar
Agora a última resposta
Agora quartos de hospitais
Agora abrem uma porta
Agora não se chora mais
Agora a chuva evapora
Agora ainda não choveu
Agora tenho mais memória
Agora tenho o que foi meu
Agora passa a paisagem
Agora não me despedi
Agora compro uma passagem
Agora ainda estou aqui
Agora sinto muita sede
Agora já é madrugada
Agora diante da parede
Agora falta uma palavra
Agora o vento no cabelo
Agora toda minha roupa
Agora volta pro novelo
Agora a língua em minha boca
Agora meu avô já vive
Agora meu filho nasceu
Agora o filho que não tive
Agora a criança sou eu
Agora sinto um gosto doce
Agora vejo a cor azul
Agora a mão de quem me trouxe
Agora é só meu corpo nu
Agora eu nasço lá de fora
Agora minha mãe é o ar
Agora eu vivo na barriga
Agora eu brigo pra voltar
Agora
Agora
Agora
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