quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Cheiro de azul


Era uma manhã assim
De um azul assim
Tão fundo assim
Azul fosco


Que o céu e o mar
Quando se amavam
Eram um só azul


E as árvores verdes
Cor da terra
Aguardavam calmas
O rebentar do dia


E eu acordei poeta
Cheio de azul e verde
E cheirando a mar.


(Antonio Carlos Borges)

Praia de Icaraí – 1996
Itaipuaçu – 14 - 06/09/2009

móvel - ser

Sou
A peça móvel do seu corpo
Das frias e quentes
Noites longas
Sou o que sobra
Entre as carícias e delícias

Sou
Onde suas pernas
Caem
Onde sua boca
Cala

Sou
Onde meu coração
Acelerado
Grita seu nome.

(Antonio Carlos Borges)
São Gonçalo, Novembro 1993.
Itaipuaçu – o4-14/09/2009
Rio de Janeiro - 09/09/2009

Será arte?

Escrevo como quem conta
A história de outro
Em minha própria história.


Expectador de mim mesmo
Autopsicográfo-me
Faço-me mito

Suporto a exaustiva fadiga
Da arte de mentir-me.

(Antonio Carlos Borges)
São Gonçalo, Janeiro de 1993.
Itaipuaçu 04/09/2009

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O amor, quando se revela

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
(Fernando Pessoa)

Viver

Quem nunca quis morrer
Não sabe o que é viver
Não sabe que viver é abrir uma janela
E pássaros pássaros sairão por ela
E hipocampos fosforescentes
Medusas translúcidas
Radiadas
Estrelas-do-mar... Ah,
Viver é sair de repente
Do fundo do mar
E voar...
e voar...
cada vez para mais alto
Como depois de se morrer!
(Mário Quintana)

Epigrama 2


(Inédito. Dedicado a ninguém)

das folhas, o sumo
do sexo , o gozo
do chão, fragmentos
(Jorge Salomão)

sábado, 15 de agosto de 2009

LIBRO DE LAS PREGUNTAS


XLI
Cuánto dura un rinoceronte

Después de ser enternecido?

Qué cuentan de nuevo las hojas

De la reciente primavera?

Las hojas viven en invierno

En secreto, con las raíces?

Qué aprendió el árbol de la tierra

Para conversar con el cielo?

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O Fim


“O tempo que anuncia o fim
também desata os nós”
Fred Martins


Não me espanta
Não ver seu rosto
Não tocar seu corpo
Não sentir seu cheiro


Mas me espanta
Não te reconhecer aqui
Nos sonhos que inventei
Nos versos que construí



(Antonio Carlos Borges)
Itaipuaçu 10/08 - 04/09/2009

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Inventário

Ontem
Ou anteontem – não sei bem
Revisitando o tempo
Encontrei meus mortos
Havia matado meus vivos
No nó dos momentos

Falaram-me de mim
Contaram-me da dor que eu senti
Do meu espanto e do meu medo
Dos meus enganos e mentiras

Não falaram de amor

Lembraram-me da casa de três janelas
E porta para rua
Dos convites pro café
Do quintal e dos limões
Do pé de sapoti e dos morcegos

Mostraram-me de novo o rio
O rio que corre manso
Sem deixar a beira
Indiferente à eira do casarão
E às palmeiras da beira rio

Então as horas não passaram
Era como se com eles
O tempo perdesse a pressa
Da mesma forma que o poço perdeu o fundo


E então o cio

(Antonio Carlos Borges)

Niterói 05/06 – 17/06 – 19/06/2009

Itaipuaçu 10/08/2009

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Sonho

Hoje sonhei com um amor que não tenho. Que jamais poderei ter. Um sonho onde eu era feliz ao lado de alguém que não conheço, mas que deixou suas marcas em mim. Quando acordei, sentia ainda o hálito de sua boca na minha. O calor do seu corpo junto ao meu e uma saudade imensa invadiu o meu coração. Fechei os olhos e ele ainda estava presente em meus pensamentos. Nunca mais esquecerei aquele sorriso de menino. Nunca mais serei feliz como fui ao seu lado. De volta à realidade, levanto da cama e vou ao banheiro. Abro o chuveiro e enquanto espero a água aquecer, observo por alguns segundos a imagem refletida no espelho. Dai-me Senhor, coragem para enfrentar mais um dia.
(Mony Rocha)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A última crônica

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico.

Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.

A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo.

A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

(Fernando Sabino)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Buracos, pião e corda



Quero explodir seu corpo
Com meu canto
Pra desatar em desencanto
Nossa relação Pião e Corda
Na qual me estico
E você roda

(Antonio Carlos Borges )
Fortaleza 30/05 - Itaipuaçu 04/06/2009 -
Niterói 17/06 - 20/06/2009

O Dom

A boca
Era o beijo
O sabor grave de cerveja
Era uma mão a roçar a nuca
Como se profana o sacro

Ao mesmo tempo
Era o doce
A inconseqüência
Era um sopro de infância
Tão sutil que só aquele que profana sente

Era como se o desejo
Ao se encontrar menino
Se transmutasse em vento
Em mar
Em som
Em tom

Era o vão das coisas que vão
Era a coma
Era o dom


(Antonio Carlos Borges )
Barra de São João 14/04/2005 - Itaipuaçu 04/06/2009
Niteroi 16/06 - 17/06/2009

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Lençóis de Mandacaru















Nasci
Entre o rio e o mar

E lá ouvi
Como o canto de um bem
Te vi

E sei
As coisas que aprendi por lá
O sorriso e a força do cantar

Cantar o que me doeu
Quando deixei meu lugar
Cantar o que estava por vir
E o que perdeu seu lugar

Contos da noite e do breu
Deslizam sobre a duna
E o vento seco passa a limpo
O rio fundo e o mar

(Antonio Carlos Borges)
Itaipuaçu 12/04 - 01/05 - 14/05/2009

no impasse – no passe – passe


Algumas coisas na vida
não passam nunca

A sua mão na minha
não passa

O seu olhar no meu
não passa


(Antonio Carlos Borges)
Barra de São João - 02/05/2009)

Todos


Todos os amores que tive
Movem-se dentro de mim
Até os esquecidos
Todos os amores

Lambem-se
Vadiam salientes com bocas salivantes
Amam-se entre si
Como se de mim não mais os fossem

Todos os amores que tenho
Abusam de mim
Usam minhas calças,
Trançam minhas pernas, meus braços,
Mordem os meus dentes
E de repente já não estão mais aqui

Todos os amores.


(Antonio Carlos Borges )
Niterói 26/01/2006 - Itaipuaçu 13/04/2009

domingo, 26 de abril de 2009

Do Pessoa ao Zé




Pensar é estar doente dos olhos.

Disto o “Pessoas” já sabia
e lá estava ele,
doente.

Quero parar de pensar
Não penso se distraído
Penso quando o sentir me trai

Penso quando da minha boca
Ambígua e feminina
A voz evasiva sai

Os sentidos quando ausentes
Vago entre o sim
E o não de um sonho
Adivinhando o som
De uma das mãos
Ao encontrar a outra

Quando ausentes
Permaneço em silêncio
Como quem flutua
Abrandando o tempo

Quando ausentes
Me lanço ao caos
Para um lugar incerto
Que há entre o zero e o Ás

Quero aqui fazer uma canção pra os sentidos
Mas não cantarei quaisquer sentidos
Apenas os bons

Cantarei aqueles que me presenteiam
Com textura fina e branca da pele de quem amo
E com o perfume do meu Saint Laurent Francês

Cantarei os que me permitem
A Valsa Brasileira do Chiquedu
E o agridoce de fruta dormida do acordar a dois

Cantarei
Ah! sim - cantarei
Os que me garantem ser
A visão do desejo nos olhos do meu amor.

No mais, à moda Zé, estou indo embora...

(Antonio Carlos Borges)

Itaipuaçu 30/03/2009

Niteroi 16/06/2009

quinta-feira, 2 de abril de 2009

"Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.”
(Clarice Lispector)

domingo, 29 de março de 2009

Água e Vinho

Todos os dias
passeava secamente na
soleira do quintal
a hora morta, a pedra morta
agonia e as laranjas
do quintal
A vida ia entre o muro e
as paredes de silêncio
e os cães que vigiavam o
seu sono não dormiam
viam sombras no ar
viam sombras no jardim
A lua morta, a noite morta
ventania e o rosário
sobre o chão
E um incêndio amarelo e
provisório consumia o coração
E começou a procurar pelas
fogueiras e lentamente
o seu coração já não temia
as chamas do inferno e
das trevas sem fim...
Haveria de chegar
o amor
(Geraldo Carneiro)

quinta-feira, 26 de março de 2009

"Como se te perdesse, assim te quero.Como se não te visse (favas douradas Sob um amarelo) assim te apreendo brusco Inamovível, e te respiro inteiro."
(Hilda Hilst)

A palavra

... Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam ... Prosterno-me diante delas... Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as ... Amo tanto as palavras ... As inesperadas ... As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem ... Vocábulos amados ... Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho ... Persigo algumas palavras ... São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema ... Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas ... E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as ... Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda ... Tudo está na palavra ... Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu ... Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que ,se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes ... São antiqüíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada ... Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos ... Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas .Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras*, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca. mais,se viu no mundo ... Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas... Por onde passavam a terra ficava arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes... o idioma. Saímos perdendo... Saímos ganhando... Levaram o ouro e nos deixaram o ouro... Levaram tudo e nos deixaram tudo... Deixaram-nos as palavras.
(Pablo Neruda)

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.
(Torquato Neto)

O último poema

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
(Manuel Bandeira)

quarta-feira, 25 de março de 2009

Canção na plenitude

Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.
(Lya Luft)

Os prazeres da psicanálise


(Cenário: bar movimentado, da moda, de preferência em Ipanema. Garçons lentos e displicentes. Os dois personagens, ELE e ELA, depois das dificuldades presumíveis que podem ser inventadas pelo diretor, conseguem uma mesa. Esperam duas horas por um garçom que já passou por eles no mínimo duzentas vezes e o diálogo se inicia.)

ELE — O que é que você quer? Chope?
ELA — Por quê deveria querer chope? Pedir chope aqui é um tanto compulsivo. Você não pede chope por uma escolha livre: é uma compulsão. Coisa típica da neurose obsessiva. Você sabe muito bem que não é meu caso, querido.
ELE — Está bem. Você já passou duas horas com seu psicanalista, hoje. Será que não pode mudar de assunto?
ELA — Fique sabendo que o auto-conhecimento é o começo da cura. Depois, não tenho pressa em beber nada. Não sofro de nenhuma regressão à fase oral, como você.
ELE — Regressão a quê? Que diabo é isso? Não estou sentindo nada!
ELA — Está, sim. Está.
ELE — Claro que não.
ELA — Claro que está. Você é que não sabe.
ELE — Ué, não estou sentindo nada!
ELA — Pior. Muito pior. Não sente por causa de seus mecanismos de defesa. Você nunca ouviu falar de couraça caracterológica?
ELE — Nunca. O que é isso?
ELA — É uma pena.
ELE — Por quê?
ELA — Você está doente, meu amor. Muito doente.
ELE — (um tanto alarmado) Não!
ELA — (com firmeza) Doente, sim. Muito doente. Por que você não vai ao Dr. Hauser? Posso marcar hora para você, amanhã.
ELE — E quem é o Dr. Hauser?
ELA — Você está cansado de saber quem é o Dr. Hauser. Pergunta por causa de outro mecanismo de defesa. Seu caso está me parecendo mais grave do que eu pensava.
ELE — Está bem. Mas quem é ele.
ELA — Meu analista, é claro. Você vai gostar muito dele, querido. É um homem maravilhoso. Bonito, inteligente, culto, atlético, divino. Se eu já não estivesse no meu quinto ano de análise, poderia pensar até que é um semideus. Mas não. Já sei que é um ser humano como qualquer outro, sujeito aos mesmos erros e defeitos. Ele mesmo fez questão de deixar isso bem claro. Não é genial?
ELE — O que é genial?
ELA — Ora, o próprio Dr. Hauser dizer que é um ser humano. Só um homem divino diria isso.
ELE — Eu também reconheço que sou apenas um ser humano.
ELA — Mas você não é o Dr. Hauser. Não desanime nas primeiras sessões. suas resistências serão muito fortes, entende? Isso também aconteceu comigo, no começo. Mas o Dr. Hauser é um mestre no manejo da transferência e, depois de algum tempo, você vai sentir—se outra pessoa.
ELE — Mas eu não quero me sentir outra pessoa.
ELA — Coitadinho de você, meu bem. Num instante o Dr. Hauser vai convencer você de que você quer ser outra pessoa. Claro que quer.
ELE — Mas que outra pessoa, meu Deus?
ELA — Uma pessoa mais livre, mais independente. Sem essa dependência neurótica que você tem de mim, por exemplo.
ELE — (esmagado) E eu tenho dependência neurótica de você?
ELA — Claro. Qualquer pessoa com experiência de análise percebe isso logo de cara.
ELE — Você está quase me convencendo.
ELA — Tem uma fixação oral, também. E é um obsessivo-compulsivo típico. Já reparou essa mania por ordem e limpeza que você tem? Já? Aposto que não. Você não repara nada porque seu mecanismo repressivo tomou a forma da inversão. Você se acredita sadio quando está horrivelmente, miseravelmente, talvez até irrecuperavelmente doente.
ELE — (totalmente aterrado) Puxa! Acho que preciso beber alguma coisa. Posso pedir um chope?
ELA — Claro. Peça um para mim, também.
(Luiz Carlos Maciel)

Alcoólicas

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.

E bebendo, Vida, recusamos o sólido
O nodoso, a friez-armadilha
De algum rosto sóbrio, certa voz
Que se amplia, certo olhar que condena
O nosso olhar gasoso: então, bebendo?
E respondemos lassas lérias letícias
O lusco das lagartixas, o lustrino
Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos
E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.
Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me
Na noite navegada, e rio, rio, e remendo
Meu casaco rosso tecido de açucena.
Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.

Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, Líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo
Fomes
País
O riso solto
A dentadura etérea
Bola
Miséria.
Bebendo, Vida, invento casa, comida
E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.

(Hilda Hilst)

Principalmente

sempre fui bem tratado como um príncipe
e fui me afeiçoando aos privilégios
aos florilégios e às vilegiaturas
que me couberam neste reino etéreo
e deletério, porque o esquecimento
é tão inevitável quanto a vida
e a morte é toda feita de mistério.
procuro ouvir a sorte nos meus búzios
como o Bilac ouvia suas estrelas,
coisa que nunca ouvi, mas compreendi
mesmo não tendo credo acreditável.
fui construindo assim meu edifício s
obre essa arquitetura de quimeras,
cujo arquiteto talvez fosse cego,
ou gênio, ou simplesmente ausente.

(Geraldo Carneiro)

Velhinha

Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente para mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
"Já ela é velha! Como o tempo passa!..."

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio de oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até ao fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente...
Já murmuro orações... falo sozinha...

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente,
Como se fosse um bando de netinhos...
(Florbela Espanca)

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

(Fernando Pessoa)

Dona Doida

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso
com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.

(Adélia Prado)
"É quase impossível evitar o excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo."

(Clarice Lispector - "Das Vantagens de Ser Bobo")

Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

(Adélia Prado)

Saber viver


Não sei...
Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura...
Enquanto durar

(Cora Coralina)
"Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti. Não indague se nossas estradas, tempo e vento desabam no abismo. Que sabes tu do fim ? Se temes que teu mistério seja uma noite, enche-o de estrelas. No deslumbramento da ascensão, se pressentires que amanhã estarás mudo, esgota, como um pássaro, as canções que tens na garganta. Canta, canta. Talvez as canções adormeçam a fera que espera devorar o pássaro. Desde que nasceste não és mais que o vôo no tempo rumo aos céu? Que importa a rota! Voa e canta enquanto existirem as asas"

(Menotti del Picchia).

Infinito Particular

Eis o melhor e o pior de mim
O meu termômetro, o meu quilate
Vem, cara, me retrate. Não é impossível
Eu não sou difícil de ler. Faça sua parte
Eu sou daqui, eu não sou de Marte
Vem, cara, me repara
Não vê, tá na cara, sou porta bandeira de mim
Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular
Em alguns instantes
Sou pequenina e também gigante
Vem, cara, se declara
O mundo é portátil
Pra quem não tem nada a esconder
Olha minha cara
É só mistério, não tem segredo
Vem cá, não tenha medo
A água é potável
Daqui você pode beber
Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular

(Arnaldo Antunes, Marisa Monte, Carlinhos Brown)

"(...)Eu quis chamar o homem, para lhe dar um sorriso, mas ele ia já longe, sem se voltar nunca, como quem não tem frente, como quem só tem costas(...)"


(Guimarães Rosa)

Antes doida que doída...

Eu transito pela vida, antes doida que doída:
tão sem dono, tão sem rumo, tão sem memória.
Entro em becos, bares, corações.
Saio intacta, sem impacto, saio rápido.
Quem desenha meus caminhos são meus passos.
Quem desenha meus amores são as minhas conveniências.
Eu transito pelas ruas, toda em cores;
toda força, toda vulva, toda contradições,
toda em carne viva.
Mas escrevo meus amores:
antes doida que doída.

(Marla de Queiroz)

Eu não sei na verdade quem eu sou

Eu não sei na verdade quem eu sou,
Já tentei calcular o meu valor,
Mas sempre encontro sorriso e o meu paraíso é onde estou...
Por que a gente é desse jeitocriando conceito pra tudo que restou?
Meninas são bruxas e fadas,
Palhaço é um homem todo pintado de piadas!
Céu azul é o telhado do mundo inteiro,
Sonho é uma coisa que fica dentro do meu travesseiro!
(...)
Perguntar de onde veio a vida,
por onde entrei deve haver uma saída,
e tudo fica sustentado pela fé!
Na verdade ninguém sabe o que é!
Velhinhos são crianças nascidas faz tempo!
Com água e farinha eu colo figurinha e foto em documento!
Escola é onde a gente aprende palavrão...
Tambor no meu peito faz o batuque do meu coração!
(...)
Percebi que a cada minuto
Tem um olho chorando de alegria e outro chorando de luto
Tem louco pulando o muro, tem corpo pegando doença
Tem gente trepando no escuro,
tem gente sentido ausência!
Eu não sei na verdade quem eu sou,
Já tentei calcular o meu valor,
Mas sempre encontro sorriso e o meu paraíso é onde estou...
Eu não sei na verdade quem eu sou.

(O Teatro Mágico)

"Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. Tive de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho. Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma... Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pássaros sem asas... São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, à espera de alguém que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim. Eram posse minha. Mas a terra não me pertencia (...)"

(Rubem Alves)
[...] sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor, pois se eu me comovia vendo você, pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo, meu Deus...como você me doía! De vez em quando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno, bem no meio duma praça, então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta, mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme...só olhando você, sem dizer nada só olhando e pensando: Meu Deus, mas como você me dói de vez em quando!

(Caio Fernando Abreu )

Espelho


Sou prateado e exato.
Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo no mesmo momento
Do jeito que é, sem manchas de amor ou desprezo.
Não sou cruel, apenas verdadeiro —
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
O tempo todo medito do outro lado da parede.
Cor-de-rosa, malhada.
Há tanto tempo olho para ele
Que acho que faz parte do meu coração.
Mas ele falha.
Escuridão e faces nos separam mais e mais.

Sou um lago, agora.
Uma mulher se debruça sobre mim,
Buscando em minhas margens sua imagem verdadeira.
Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e a reflito fielmente.
Me retribui com lágrimas e acenos.
Sou importante para ela.
Ela vai e vem.
A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.
Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha
Emerge em sua direção, dia a dia, como um peixe terrível.

(Sylvia Plath)

A dança


Não te amo como se fosses a rosa de sal, topázio
Ou flechas de cravos que propagam o fogo:
Te amo como se amam certas coisas obscuras,
Secretamente, entre a sombra e a alma.
Te amo como a planta que não floresce e leva
Dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
E graças a teu amor vive escuro em meu corpo
O apertado aroma que ascendeu da terra.
Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
Te amo assim diretamente sem problemas nem orgulho:
Assim te amo porque não sei amar de outra maneira,
Senão assim deste modo que não sou nem és,
Tão perto que tua mão sobre o meu peito é minha,
Tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.
Antes de amar-te, amor, nada era meu:
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se dependiam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado, decaído,
Tudo era inalianavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.

(Pablo Neruda)

Nem bem acordo


Nem bem acordo
Já espio teu retrato
Faço um trato com o espelho
Hoje eu não quero sentir dor
Hora do almoço
Falo teu nome
Santo nome em vão
O que consome
Meu corpo moço
Fome ou solidão
Não quero nada
Essa estrada eu já sei aonde vai dar
Vai dar em nada,
Não quero ir, nem voltar

Cinco da tarde
Tudo arde
Coração e céu
Fico com ar de
Quem espera
Um aceno um sinal
Já noite alta
Não sinto sono
Não te esqueço mais
Viro do avesso
Adormeço
Cansada de mim sem paz
Não quero nada
Essa estrada eu já sei aonde vai dar
Vai dar em nada,
Não quero ir, nem voltar
Hoje eu não quero dor
Hoje eu não quero flor
Não quero nada
Que rime com o amor

(Zeca Baleiro)

Pseudo Blues

Dentro de cada um
Tem mais mistérios do que pensa o outro
Uma louca paixão avassala a alma o mais que pode
O certo é incerto, o incerto é uma estrada reta
De vez em quando acerto, depois tropeço no meio da linha
Tem essa mágica
O dia nasce todo dia
Resta uma dúvida
O sol só vem de vez em quando
O certo é incerto, o incerto é uma estrada reta
De vez em quando acerto
Depois tropeço no meio da linha

(Nico Rezende/Jorge Salomão)

Benditas

Benditas coisas que eu não sei
Os lugares onde não fui
Os gostos que não provei
Meus verdes ainda não maduros
Os espaços que ainda procuro
Os amores que eu nunca encontrei
Benditas coisas que não sejam benditas
A vida é curta
Mas enquanto dura
Posso durante um minuto ou mais
Te beijar pra sempre o amor não mente, não
mente jamais
E desconhece do relógio o velho futuro
O tempo escorre num piscar de olhos
E dura muito além dos nossos sonhos mais puros
Bom é não saber o quanto a vida dura
Ou se estarei aqui na primavera futura
Posso brincar de eternidade agora
Sem culpa nenhuma

(Zélia Duncan)

Convite


Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na conchada vida,
sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos a sério.

(Lya Luft)

terça-feira, 24 de março de 2009

Reparar


Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara. Escrevi-o para Ensaio Sobre a Cegueira há já uns bons anos. Hoje, quando se estreia em Espanha o filme baseado nesse romance, encontrei-me com a frase nos sacos da livraria Ocho y medio e na contracapa do livro de Fernando Meirelles “Diario de Rodaje” que a mesma livraria-editora publicou com primor. Às vezes digo que com a leitura das epígrafes dos meus romances já se sabe tudo. Hoje, não sei porquê, vendo esta, eu mesmo tive uma súbita percepção, a da urgência de reparar, de combater a cegueira. Será por tê-lo visto escrito num livro distinto daquele a que corresponde? Ou será porque este nosso mundo necessita de combater as sombras? Não sei. Mas se podes ver, repara. (José Saramago)
"É muito difícil pensar em "ser um escritor" quando se nasce em um país que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por uma profissão, mas sim por um ato de loucura".

(Mario Vargas Llosa, na palestra "História Secreta de um Romance")
Mais importante que qualquer astronauta é o sonâmbulo e o trapezista voador. E mais importante do que todos eles é o paralítico na sua cadeira de rodas, e mais ainda se lhe tiram a cadeira. Voar, qualquer mosquito voa; até mesmo um cisco voa e revoa. Até um suicida pode ter seu vôo particularíssimo se se atirar do alto do Empire State Building – para citar os mais voadores. A forma literária não me interessa: nunca procurei inovar no sentido da forma, mas avançar nas idéias. A viagem de Apolo-20 entre as galáxias realizo-a eu mesmo, sem mover uma palha e sem ao menos assestar os óculos no nariz. Só me sujeitaria a vestir-me de astronauta no carnaval. (Campos de Carvalho)
"Nós, que estamos vivos, neste momento, somos apenas uma parte infinitesimal de algo que existe há uma eternidade e continiará a existir, quando não houver mais nada servindo como prova de existência da Terra. Entretanto, precisamos sentir e acreditar que somos tudo"
(Liv Ullmann - "Mutações")


segunda-feira, 16 de março de 2009

Há momentos

Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la.
Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.

(Clarice Lispector)

domingo, 15 de março de 2009

Loucos e santos

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco. Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças. Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. Quero amigos sérios. Daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; E velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril. (Oscar Wilde)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Receita para comer o homem amado


Pegue o homem que te maltrata, estenda-o sobre a tábua de bife e comece a sová-lo pelas costas. Depois pique bem picadinho e jogue na gordura quente. Acrescente os olhos e a cebola. Mexa devagar até tudo ficar dourado. A língua, cortada em minúsculos pedaços, deve ser colocada em seguida, assim como as mãos, os pés e o cheiro verde. Quando o refogado exalar o odor dos que ardem no inferno, jogue água fervente até amolecer o coração. Empane o pinto no ovo e na farinha de rosca e sirva como aperitivo. Devore tudo com talher de prata, limpe a boca com guardanapo de linho e arrote com vontade, pra que isso não se repita nunca mais.

Feche os olhos


Feche os olhos. Deixa eu te contar uma estória, a história, o que eu reluto tanto em falar. A minha vida não tinha sentido. Não que eu ache que sentido seja predicado obrigatório, mas ajuda. Fica mais fácil sair da cama de manhã cedo.
Prazer é sentido, meu amor? Eu sempre pensei que sim, eu que tanto me culpava por essas arestas, essas pequenas indisciplinas que me foram repreendidas. Acho que prazer é o sentido de tudo, inclusive de você estar aí e eu aqui, falando no seu ouvido. Não teria razão para contar nada, e não teria nada para contar, se não houvesse o sentido.
Não quis nascer para esperar morrer, você já sabe. Nisso todo mundo é igual. Mas, se todo mundo é assim, por que ninguém percebe o sentido das coisas? Por que é que todo mundo assiste à própria vida da janela, como se fossem convidados da própria festa? Talvez você não mereça saber, ainda. É preciso mergulhar um pouco mais fundo, é preciso ter mais coragem, inclusive para não precisar de ar lá embaixo. Lá embaixo é onde todas as coisas se fundem em seu sentido, e é por isso que lá (e quiçá somente lá) o sentido não importa; é a própria vida. Como a poesia, que, acima de qualquer outra arte, requer paciência. Os poemas lidos e relidos são continuamente reaprendidos, e apelam aos ouvidos, à razão e aos sentimentos de formas diferentes, a cada vez.
Só que todos temos um núcleo duro, algo que se mantém quase que incólume ao longo de nossas experiências, e que instintivamente procuramos preservar. Alguns chamam esse núcleo de alma. Pessoalmente, gosto de pensar que dentro de mim há um poço ancestral, de onde brota o que me é mais arraigado; os meus medos, as minhas idiossincrasias, as minhas esperanças… os meus sonhos. Essas são as minhas árvores de maravilha (“cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos porque os sabemos fora de relação com o que há na vida”, como disse Álvaro). É essa a minha salvação, a minha bússola, o meu norte, por onde não me perco. Quero nutrir Árvores de Maravilha, tantas quanto possível. Quantas eu conseguir plantar. E quantas você quiser partilhar comigo.
No entanto, não peço que você mergulhe junto. Só pedi para que você fechasse os olhos, e mesmo assim por alguns instantes. Se um dia você quiser mergulhar, procure a sua própria profundidade e se certifique das suas águas. Não conte comigo, eu posso não estar aqui.
Não quero que você saiba, só queria te contar.
Um dia disseram que eu seria assim, mas até agora eu não sabia. E que dor que é, saber que eu só tenho você com quem compartilhar essa descoberta, e, no entanto, não posso fazê-lo. Você não compreende, não porque não quer, mas porque não pode. Porque você não é o que eu sou. Muito menos eu posso ser outra coisa que não isso, que se estende ao seu lado e pede para que você feche os olhos e escute. Eu, que sou tão frágil, passarinho tão alvo, não consigo compartilhar essa fortaleza nova. Isso me frustra bem mais do que a você.
Como queriam que eu reagisse? Se você fosse como os outros, não ia querer que eu falasse nada. Ia querer que eu me deitasse e dormisse — o bom e velho sono dos justos — e que eu acordasse na hora certa, pesarosa ou destemida (tanto faria). Só que eu não posso. Os outros ainda não sabem, mas eu não posso, essa é que é a verdade. Eu sou inapta. Eu sou escorregadia.
Aquele doutor disse que meu problema é que eu estou vendo meus sonhos morrerem. Pode até ser isso mesmo, eu não sei, mas ele é o doutor, deve saber o que está falando. O que sinto, isso sim, é alguma coisa ainda indefinida, como quando se quer fazer uma pergunta embaraçosa: a frase está feita, até o ponto de interrogação, mas não se consegue expressá-la em som. Uma pergunta calada, não é mesmo? No final, tudo se resume a uma pergunta tapada por entre as amídalas.
O fato é que tem dias em que não me é possível viver senão assim: sou uma estrela de muitas pontas. Mas não sei para onde rumo, ou como devo me consumir. Você só me vê à noite. Só me sabe quando as luzes se apagam. A sua última pergunta antes de você dormir e sonhar com as estrelas. Vai ver é por isso que eu não pude te escrever, e agora sopro essas palavras. Não porque tudo isso no papel soaria piegas, e eu arriscaria ser mal-compreendida, mas porque escrever é abrir uma janela. E eu não sei com que paisagem eu me depararia.

(Aline Arroxelas)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Se eu fosse Deus...


Se eu fosse algum tipo de Deus (sim, caro leitor religioso, eu as vezes blasfemo e me imagino como Deus), apagaria em primeiro lugar toda forma de governo, órgão público ou organização privada, que mantivesse algum tipo de controle sobre o homem. Isso incluiria escolas, universidades, empresas, delegacias, hospitais e até partidos políticos. Nem as fronteiras seriam poupadas, nacionais, regionais ou continentais. Depois disso, acabaria com qualquer tipo de manifestação cultural, religiosa ou social, com os limites morais e qualquer coisa mais que limitasse a profundidade infinita que possuímos dentro de nós.Ao terminar de usar minha borracha divina, sobrariam apenas os homens, sozinhos no mundo e livres para criar e pensar.Com minha onisciência inerente a qualquer deus, veria então os homens, mesmo livres, fazendo e recriando tudo da mesma forma. Tomando as mesmas decisões erradas. Assim eu entenderia, que o homem não tem a capacidade de se gerir coletiva ou individualmente, que precisa de algo que o controle, algo em que acreditar para não ter de pensar na dor que é viver. Veria também que toda a baixeza e mesquinharia que é espalhada pelo mundo se faz necessária, para que do meio dela, possam nascer as virtudes grandiosas que são empunhadas por alguns indivíduos especiais que de vez em quando aparecem por aí. Finalmente, me daria conta de que não adianta apagar as coisas que regem o homem e dar lhe a liberdade. O que de fato adiantaria, seria apagar os próprios homens, deixando um ou outro escolhido, para que esses pudessem refazer a humanidade. Talvez até criar uma espécie nova. O homem é o ser perfeito para se lutar por liberdade, mas é o pior de todos quando a questão é aproveitar as que são conquistadas. Numa situação hipotética, onde o universo fosse totalmente explorado e centenas de planetas com vida inteligente já tivessem sido descobertos, nossa existência poderia talvez ganhar um significado concreto. Seríamos mercenários, contratados para lutar pela liberdade de outros planetas oprimidos por raças mais fortes. Nós faríamos o que sabemos de melhor, e os contratantes poderiam aproveitar sua liberdade da forma que melhor lhes apetecesse depois que a conquistássemos. Não quis perder muito tempo pensando nessa possibilidade de ser Deus, mas acho que seria mais ou menos assim minha experiência como Ele, bem curta.

Felicidade???


O que faz você feliz ?

A lua, a praia, o mar.

Uma rua, passear.

Um doce, uma dança.

Um beijo ou goiabada com queijo ?

Afinal, o que faz você feliz ?

Chocolate, paixão

Dormir cedo, acordar tarde

Arroz com feijão, matar a saudade

O aumento, a casa, o carro que você sempre quis

Ou são os sonhos que te fazem feliz ?

Dormir na rede, matar a sede

Ler ou viver um romance

O que faz você feliz ?

Um lápis, uma letra, uma conversa boa

Um cafuné, café com leite, rir a toa

Um pássaro, um parque, um chafariz

Ou será o choro que te faz feliz ?

A pausa para pensar

Sentir o vento

Esquecer o tempo

O céu

O sol

Um som

A pessoa

Um lugar.

Agora me diz, o que faz você feliz ?!


(Arnaldo Antunes)