(Caio Fernando Abreu - conto "Lixo e Purpurina" do livro "Ovelhas Negras")
"Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto. Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores". (Lya Luft)
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Música
Se perdeu no fio da vida
E eu vou embora
Sem mais feridas
Sem despedidas
Eu quero ver o mar
Eu quero ver o mar
Eu quero ver o mar
Eu quero ver o mar
Se voltar desejos
Ou se eles foram mesmo
Lembre da nossa música
Música
Se lembrar dos tempos
Dos nossos momentos
Lembre da nossa música
Música
Nossas juras de amor
Já desbotadas
Nossos beijos de outrora
Foram guardados
Nosso mais belo plano
Desperdiçado
Nossa graça e vontade
Derretem na chuva
Se voltar desejos
Ou se eles foram mesmo
Lembre da nossa música
Música
Se lembrar dos tempos
Dos nossos momentos
Lembre da nossa música
Música
Um costume de nós
Fica agarrado
As lembranças, os cheiros.
Dilacerados
Nossa bela história
Tá no passado
O amor que me tinhas
Era pouco e se acabou
Se voltar desejos
Ou se eles foram mesmo
Lembre da nossa música
Música
Se lembrar dos tempos
Dos nossos momentos
Lembre da nossa música
Música
(Liminha / Vanessa da Mata)
Novamente
você não dá valor ao que possui
enquanto sofre o coração intui
que ao mesmo tempo que magoa o tempo
o tempo flui
assim o sangue corre em cada veia
o vento brinca com os grãos de areia
poetas cortejando a branca luz
e ao mesmo tempo em que machuca o tempo
me passeia
quem sabe o que se dá em mim
quem sabe o que será de nós
o tempo que antecipa o fim
também desata os nós
quem sabe soletrar adeus
sem lágrimas, nenhuma dor
os pássaros atrás do sol
as dunas de poeira
o céu de anil do pólo sul
a dinamite no paiol
não há limite no anormal
é que nem sempre o amor
é tão azul
a música preenche a tua falta
motivo dessa solidão sem fim
se alinham pontos negros de nós dois
e arriscam uma fuga contra o tempo
o tempo salta
(Fred Martins)
A gente se acostuma...
Todas as vidas
uma cabocla velha
de mau-olhado,
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda, desabusada,
sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha, e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra, meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada, tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.
(Cora Coralina)
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
O homem invisível
Vigília
Meu olhar manso e quente preso.
Vigília .
Se eu tivesse aí não tinha, não tava.
Minha boca muda só olhava.
Perseguia tua cor, teu dourado....
Ah se seu tivesse aí.....
E no meu silêncio, minha constância, te ensinava.
A esperar, como espera o cão.....
Se eu tivesse aí..
Eu me amava só um pouquinho enquanto esperava.
Cheiro de azul

De um azul assim
Tão fundo assim
Azul fosco
Que o céu e o mar
Quando se amavam
Eram um só azul
E as árvores verdes
Cor da terra
Aguardavam calmas
O rebentar do dia
E eu acordei poeta
Cheio de azul e verde
E cheirando a mar.
(Antonio Carlos Borges)
Itaipuaçu – 14 - 06/09/2009
móvel - ser
A peça móvel do seu corpo
Das frias e quentes
Noites longas
Sou o que sobra
Entre as carícias e delícias
Sou
Onde suas pernas
Caem
Onde sua boca
Cala
Sou
Onde meu coração
Acelerado
Grita seu nome.
(Antonio Carlos Borges)
São Gonçalo, Novembro 1993.
Itaipuaçu – o4-14/09/2009
Rio de Janeiro - 09/09/2009
Será arte?
A história de outro
Em minha própria história.
Expectador de mim mesmo
Autopsicográfo-me
Faço-me mito
Suporto a exaustiva fadiga
Da arte de mentir-me.
(Antonio Carlos Borges)
São Gonçalo, Janeiro de 1993.
Itaipuaçu 04/09/2009
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
O amor, quando se revela
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
(Fernando Pessoa)
Viver
Não sabe o que é viver
Não sabe que viver é abrir uma janela
E pássaros pássaros sairão por ela
E hipocampos fosforescentes
Medusas translúcidas
Radiadas
Estrelas-do-mar... Ah,
Viver é sair de repente
Do fundo do mar
E voar...
e voar...
cada vez para mais alto
Como depois de se morrer!
(Mário Quintana)
sábado, 15 de agosto de 2009
LIBRO DE LAS PREGUNTAS
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Inventário
Ou anteontem – não sei bem
Revisitando o tempo
Encontrei meus mortos
Havia matado meus vivos
No nó dos momentos
Falaram-me de mim
Contaram-me da dor que eu senti
Do meu espanto e do meu medo
Dos meus enganos e mentiras
Não falaram de amor
Lembraram-me da casa de três janelas
E porta para rua
Dos convites pro café
Do quintal e dos limões
Do pé de sapoti e dos morcegos
Mostraram-me de novo o rio
O rio que corre manso
Sem deixar a beira
Indiferente à eira do casarão
E às palmeiras da beira rio
Então as horas não passaram
Era como se com eles
O tempo perdesse a pressa
Da mesma forma que o poço perdeu o fundo
E então o cio
(Antonio Carlos Borges)
Niterói 05/06 – 17/06 – 19/06/2009
Itaipuaçu 10/08/2009

