"Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto. Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores". (Lya Luft)
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Sonho
quinta-feira, 18 de junho de 2009
A última crônica
Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo.
A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
(Fernando Sabino)
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Buracos, pião e corda
Quero explodir seu corpo
Com meu canto
Pra desatar em desencanto
Nossa relação Pião e Corda
Na qual me estico
E você roda
(Antonio Carlos Borges )
Fortaleza 30/05 - Itaipuaçu 04/06/2009 - Niterói 17/06 - 20/06/2009
O Dom
Era o beijo
O sabor grave de cerveja
Era uma mão a roçar a nuca
Como se profana o sacro
Ao mesmo tempo
Era o doce
A inconseqüência
Era um sopro de infância
Tão sutil que só aquele que profana sente
Era como se o desejo
Ao se encontrar menino
Se transmutasse em vento
Em mar
Em som
Em tom
Era o vão das coisas que vão
Era a coma
Era o dom
(Antonio Carlos Borges )
Barra de São João 14/04/2005 - Itaipuaçu 04/06/2009
Niteroi 16/06 - 17/06/2009
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Lençóis de Mandacaru
Nasci
Entre o rio e o mar
E lá ouvi
Como o canto de um bem
Te vi
E sei
As coisas que aprendi por lá
O sorriso e a força do cantar
Cantar o que me doeu
Quando deixei meu lugar
Cantar o que estava por vir
E o que perdeu seu lugar
Contos da noite e do breu
Deslizam sobre a duna
E o vento seco passa a limpo
O rio fundo e o mar
(Antonio Carlos Borges)
Itaipuaçu 12/04 - 01/05 - 14/05/2009
no impasse – no passe – passe
Algumas coisas na vida
não passam nunca
A sua mão na minha
não passa
O seu olhar no meu
não passa
(Antonio Carlos Borges)
Todos
Todos os amores que tive
Movem-se dentro de mim
Até os esquecidos
Todos os amores
Lambem-se
Vadiam salientes com bocas salivantes
Amam-se entre si
Como se de mim não mais os fossem
Todos os amores que tenho
Abusam de mim
Usam minhas calças,
Trançam minhas pernas, meus braços,
Mordem os meus dentes
E de repente já não estão mais aqui
Todos os amores.
(Antonio Carlos Borges )
domingo, 26 de abril de 2009
Do Pessoa ao Zé
Pensar é estar doente dos olhos.
Disto o “Pessoas” já sabia
e lá estava ele,
doente.
Quero parar de pensar
Não penso se distraído
Penso quando o sentir me trai
Penso quando da minha boca
Ambígua e feminina
A voz evasiva sai
Os sentidos quando ausentes
Vago entre o sim
E o não de um sonho
Adivinhando o som
De uma das mãos
Ao encontrar a outra
Quando ausentes
Permaneço em silêncio
Como quem flutua
Abrandando o tempo
Quando ausentes
Me lanço ao caos
Para um lugar incerto
Que há entre o zero e o Ás
Quero aqui fazer uma canção pra os sentidos
Mas não cantarei quaisquer sentidos
Apenas os bons
Cantarei aqueles que me presenteiam
Com textura fina e branca da pele de quem amo
E com o perfume do meu Saint Laurent Francês
Cantarei os que me permitem
A Valsa Brasileira do Chiquedu
E o agridoce de fruta dormida do acordar a dois
Cantarei
Ah! sim - cantarei
Os que me garantem ser
A visão do desejo nos olhos do meu amor.
No mais, à moda Zé, estou indo embora...
(Antonio Carlos Borges)
Itaipuaçu 30/03/2009
Niteroi 16/06/2009
quinta-feira, 2 de abril de 2009
domingo, 29 de março de 2009
Água e Vinho
passeava secamente na
soleira do quintal
a hora morta, a pedra morta
agonia e as laranjas
do quintal
A vida ia entre o muro e
as paredes de silêncio
e os cães que vigiavam o
seu sono não dormiam
viam sombras no ar
viam sombras no jardim
A lua morta, a noite morta
ventania e o rosário
sobre o chão
E um incêndio amarelo e
provisório consumia o coração
E começou a procurar pelas
fogueiras e lentamente
o seu coração já não temia
as chamas do inferno e
das trevas sem fim...
Haveria de chegar
o amor
quinta-feira, 26 de março de 2009
A palavra
Cogito
O último poema
quarta-feira, 25 de março de 2009
Canção na plenitude
O que te posso dar é mais que tudo
Os prazeres da psicanálise
(Cenário: bar movimentado, da moda, de preferência em Ipanema. Garçons lentos e displicentes. Os dois personagens, ELE e ELA, depois das dificuldades presumíveis que podem ser inventadas pelo diretor, conseguem uma mesa. Esperam duas horas por um garçom que já passou por eles no mínimo duzentas vezes e o diálogo se inicia.)
Alcoólicas
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.
Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.
E bebendo, Vida, recusamos o sólido
O nodoso, a friez-armadilha
De algum rosto sóbrio, certa voz
Que se amplia, certo olhar que condena
O nosso olhar gasoso: então, bebendo?
E respondemos lassas lérias letícias
O lusco das lagartixas, o lustrino
Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos
E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.
Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me
Na noite navegada, e rio, rio, e remendo
Meu casaco rosso tecido de açucena.
Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.
Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, Líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo
Fomes
País
O riso solto
A dentadura etérea
Bola
Miséria.
Bebendo, Vida, invento casa, comida
E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.
(Hilda Hilst)