quarta-feira, 24 de junho de 2009

Sonho

Hoje sonhei com um amor que não tenho. Que jamais poderei ter. Um sonho onde eu era feliz ao lado de alguém que não conheço, mas que deixou suas marcas em mim. Quando acordei, sentia ainda o hálito de sua boca na minha. O calor do seu corpo junto ao meu e uma saudade imensa invadiu o meu coração. Fechei os olhos e ele ainda estava presente em meus pensamentos. Nunca mais esquecerei aquele sorriso de menino. Nunca mais serei feliz como fui ao seu lado. De volta à realidade, levanto da cama e vou ao banheiro. Abro o chuveiro e enquanto espero a água aquecer, observo por alguns segundos a imagem refletida no espelho. Dai-me Senhor, coragem para enfrentar mais um dia.
(Mony Rocha)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A última crônica

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico.

Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.

A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo.

A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

(Fernando Sabino)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Buracos, pião e corda



Quero explodir seu corpo
Com meu canto
Pra desatar em desencanto
Nossa relação Pião e Corda
Na qual me estico
E você roda

(Antonio Carlos Borges )
Fortaleza 30/05 - Itaipuaçu 04/06/2009 -
Niterói 17/06 - 20/06/2009

O Dom

A boca
Era o beijo
O sabor grave de cerveja
Era uma mão a roçar a nuca
Como se profana o sacro

Ao mesmo tempo
Era o doce
A inconseqüência
Era um sopro de infância
Tão sutil que só aquele que profana sente

Era como se o desejo
Ao se encontrar menino
Se transmutasse em vento
Em mar
Em som
Em tom

Era o vão das coisas que vão
Era a coma
Era o dom


(Antonio Carlos Borges )
Barra de São João 14/04/2005 - Itaipuaçu 04/06/2009
Niteroi 16/06 - 17/06/2009

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Lençóis de Mandacaru















Nasci
Entre o rio e o mar

E lá ouvi
Como o canto de um bem
Te vi

E sei
As coisas que aprendi por lá
O sorriso e a força do cantar

Cantar o que me doeu
Quando deixei meu lugar
Cantar o que estava por vir
E o que perdeu seu lugar

Contos da noite e do breu
Deslizam sobre a duna
E o vento seco passa a limpo
O rio fundo e o mar

(Antonio Carlos Borges)
Itaipuaçu 12/04 - 01/05 - 14/05/2009

no impasse – no passe – passe


Algumas coisas na vida
não passam nunca

A sua mão na minha
não passa

O seu olhar no meu
não passa


(Antonio Carlos Borges)
Barra de São João - 02/05/2009)

Todos


Todos os amores que tive
Movem-se dentro de mim
Até os esquecidos
Todos os amores

Lambem-se
Vadiam salientes com bocas salivantes
Amam-se entre si
Como se de mim não mais os fossem

Todos os amores que tenho
Abusam de mim
Usam minhas calças,
Trançam minhas pernas, meus braços,
Mordem os meus dentes
E de repente já não estão mais aqui

Todos os amores.


(Antonio Carlos Borges )
Niterói 26/01/2006 - Itaipuaçu 13/04/2009

domingo, 26 de abril de 2009

Do Pessoa ao Zé




Pensar é estar doente dos olhos.

Disto o “Pessoas” já sabia
e lá estava ele,
doente.

Quero parar de pensar
Não penso se distraído
Penso quando o sentir me trai

Penso quando da minha boca
Ambígua e feminina
A voz evasiva sai

Os sentidos quando ausentes
Vago entre o sim
E o não de um sonho
Adivinhando o som
De uma das mãos
Ao encontrar a outra

Quando ausentes
Permaneço em silêncio
Como quem flutua
Abrandando o tempo

Quando ausentes
Me lanço ao caos
Para um lugar incerto
Que há entre o zero e o Ás

Quero aqui fazer uma canção pra os sentidos
Mas não cantarei quaisquer sentidos
Apenas os bons

Cantarei aqueles que me presenteiam
Com textura fina e branca da pele de quem amo
E com o perfume do meu Saint Laurent Francês

Cantarei os que me permitem
A Valsa Brasileira do Chiquedu
E o agridoce de fruta dormida do acordar a dois

Cantarei
Ah! sim - cantarei
Os que me garantem ser
A visão do desejo nos olhos do meu amor.

No mais, à moda Zé, estou indo embora...

(Antonio Carlos Borges)

Itaipuaçu 30/03/2009

Niteroi 16/06/2009

quinta-feira, 2 de abril de 2009

"Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.”
(Clarice Lispector)

domingo, 29 de março de 2009

Água e Vinho

Todos os dias
passeava secamente na
soleira do quintal
a hora morta, a pedra morta
agonia e as laranjas
do quintal
A vida ia entre o muro e
as paredes de silêncio
e os cães que vigiavam o
seu sono não dormiam
viam sombras no ar
viam sombras no jardim
A lua morta, a noite morta
ventania e o rosário
sobre o chão
E um incêndio amarelo e
provisório consumia o coração
E começou a procurar pelas
fogueiras e lentamente
o seu coração já não temia
as chamas do inferno e
das trevas sem fim...
Haveria de chegar
o amor
(Geraldo Carneiro)

quinta-feira, 26 de março de 2009

"Como se te perdesse, assim te quero.Como se não te visse (favas douradas Sob um amarelo) assim te apreendo brusco Inamovível, e te respiro inteiro."
(Hilda Hilst)

A palavra

... Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam ... Prosterno-me diante delas... Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as ... Amo tanto as palavras ... As inesperadas ... As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem ... Vocábulos amados ... Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho ... Persigo algumas palavras ... São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema ... Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas ... E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as ... Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda ... Tudo está na palavra ... Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu ... Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que ,se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes ... São antiqüíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada ... Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos ... Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas .Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras*, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca. mais,se viu no mundo ... Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas... Por onde passavam a terra ficava arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes... o idioma. Saímos perdendo... Saímos ganhando... Levaram o ouro e nos deixaram o ouro... Levaram tudo e nos deixaram tudo... Deixaram-nos as palavras.
(Pablo Neruda)

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.
(Torquato Neto)

O último poema

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
(Manuel Bandeira)

quarta-feira, 25 de março de 2009

Canção na plenitude

Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.
(Lya Luft)

Os prazeres da psicanálise


(Cenário: bar movimentado, da moda, de preferência em Ipanema. Garçons lentos e displicentes. Os dois personagens, ELE e ELA, depois das dificuldades presumíveis que podem ser inventadas pelo diretor, conseguem uma mesa. Esperam duas horas por um garçom que já passou por eles no mínimo duzentas vezes e o diálogo se inicia.)

ELE — O que é que você quer? Chope?
ELA — Por quê deveria querer chope? Pedir chope aqui é um tanto compulsivo. Você não pede chope por uma escolha livre: é uma compulsão. Coisa típica da neurose obsessiva. Você sabe muito bem que não é meu caso, querido.
ELE — Está bem. Você já passou duas horas com seu psicanalista, hoje. Será que não pode mudar de assunto?
ELA — Fique sabendo que o auto-conhecimento é o começo da cura. Depois, não tenho pressa em beber nada. Não sofro de nenhuma regressão à fase oral, como você.
ELE — Regressão a quê? Que diabo é isso? Não estou sentindo nada!
ELA — Está, sim. Está.
ELE — Claro que não.
ELA — Claro que está. Você é que não sabe.
ELE — Ué, não estou sentindo nada!
ELA — Pior. Muito pior. Não sente por causa de seus mecanismos de defesa. Você nunca ouviu falar de couraça caracterológica?
ELE — Nunca. O que é isso?
ELA — É uma pena.
ELE — Por quê?
ELA — Você está doente, meu amor. Muito doente.
ELE — (um tanto alarmado) Não!
ELA — (com firmeza) Doente, sim. Muito doente. Por que você não vai ao Dr. Hauser? Posso marcar hora para você, amanhã.
ELE — E quem é o Dr. Hauser?
ELA — Você está cansado de saber quem é o Dr. Hauser. Pergunta por causa de outro mecanismo de defesa. Seu caso está me parecendo mais grave do que eu pensava.
ELE — Está bem. Mas quem é ele.
ELA — Meu analista, é claro. Você vai gostar muito dele, querido. É um homem maravilhoso. Bonito, inteligente, culto, atlético, divino. Se eu já não estivesse no meu quinto ano de análise, poderia pensar até que é um semideus. Mas não. Já sei que é um ser humano como qualquer outro, sujeito aos mesmos erros e defeitos. Ele mesmo fez questão de deixar isso bem claro. Não é genial?
ELE — O que é genial?
ELA — Ora, o próprio Dr. Hauser dizer que é um ser humano. Só um homem divino diria isso.
ELE — Eu também reconheço que sou apenas um ser humano.
ELA — Mas você não é o Dr. Hauser. Não desanime nas primeiras sessões. suas resistências serão muito fortes, entende? Isso também aconteceu comigo, no começo. Mas o Dr. Hauser é um mestre no manejo da transferência e, depois de algum tempo, você vai sentir—se outra pessoa.
ELE — Mas eu não quero me sentir outra pessoa.
ELA — Coitadinho de você, meu bem. Num instante o Dr. Hauser vai convencer você de que você quer ser outra pessoa. Claro que quer.
ELE — Mas que outra pessoa, meu Deus?
ELA — Uma pessoa mais livre, mais independente. Sem essa dependência neurótica que você tem de mim, por exemplo.
ELE — (esmagado) E eu tenho dependência neurótica de você?
ELA — Claro. Qualquer pessoa com experiência de análise percebe isso logo de cara.
ELE — Você está quase me convencendo.
ELA — Tem uma fixação oral, também. E é um obsessivo-compulsivo típico. Já reparou essa mania por ordem e limpeza que você tem? Já? Aposto que não. Você não repara nada porque seu mecanismo repressivo tomou a forma da inversão. Você se acredita sadio quando está horrivelmente, miseravelmente, talvez até irrecuperavelmente doente.
ELE — (totalmente aterrado) Puxa! Acho que preciso beber alguma coisa. Posso pedir um chope?
ELA — Claro. Peça um para mim, também.
(Luiz Carlos Maciel)

Alcoólicas

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.

E bebendo, Vida, recusamos o sólido
O nodoso, a friez-armadilha
De algum rosto sóbrio, certa voz
Que se amplia, certo olhar que condena
O nosso olhar gasoso: então, bebendo?
E respondemos lassas lérias letícias
O lusco das lagartixas, o lustrino
Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos
E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.
Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me
Na noite navegada, e rio, rio, e remendo
Meu casaco rosso tecido de açucena.
Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.

Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, Líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo
Fomes
País
O riso solto
A dentadura etérea
Bola
Miséria.
Bebendo, Vida, invento casa, comida
E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.

(Hilda Hilst)

Principalmente

sempre fui bem tratado como um príncipe
e fui me afeiçoando aos privilégios
aos florilégios e às vilegiaturas
que me couberam neste reino etéreo
e deletério, porque o esquecimento
é tão inevitável quanto a vida
e a morte é toda feita de mistério.
procuro ouvir a sorte nos meus búzios
como o Bilac ouvia suas estrelas,
coisa que nunca ouvi, mas compreendi
mesmo não tendo credo acreditável.
fui construindo assim meu edifício s
obre essa arquitetura de quimeras,
cujo arquiteto talvez fosse cego,
ou gênio, ou simplesmente ausente.

(Geraldo Carneiro)

Velhinha

Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente para mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
"Já ela é velha! Como o tempo passa!..."

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio de oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até ao fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente...
Já murmuro orações... falo sozinha...

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente,
Como se fosse um bando de netinhos...
(Florbela Espanca)

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

(Fernando Pessoa)