terça-feira, 26 de abril de 2011

Síncope


Intervalar
Como o momento se liga ao devir
Quero estar na coma que precede o tom
No vão das coisas que vão





Antonio Carlos Borges Campos
26/04/2011
Icaraí

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Negro


Acho que o fundo é negro...
ou Dark, como preferirem

Eu preciso do fundo negro para ver a luz que emerge.

Agora sim: Fiat Lux!

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Quem é ela?


Ali está ela!

Em suas mãos de Ana
eu vejo ouro e lata


De sua voz de Nanda
ouço o conto da Marta

Da Marta Maria Rosa
da rua,
que no cabelo prata,
traz a marca da lua

Será que ela é feita de Anas

e Martas
e Marias
e Nandas
e Rosas que perfumam e queimam em chama?

E quando a Marta se deita,

com quantas Anas se encontra?

Com quantas Rosas se arranha?

Itaipuaçu – 24/06/2010
Nierói - 07/10/2011

Autocrítica

Às vezes gosto dos meus versos
Às vezes não

Às vezes eles parecem
pensamentos enfeitados

Às vezes gosto
Às vezes não


 Às vezes não sei de mim

Itaipuaçu – 21/06/2010

O passeio


Há um momento em que já não se sabe mais de qual ponta da guia parte o comando...

...seguimos guia(n)do.

Icaraí, 22 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Desato


É preciso fritar o arroz bastante antes de jogar água fervendo.
E não pode mexer jamais depois de a água ser posta.
O alho deve fritar no óleo junto com o arroz.
Coisas que eu sei e que não. Eu sei muitas coisas.
Faxina por exemplo. Sei limpar uma casa de tal modo
Que não sobra um canto que não tenha sido tocado
Por minhas mãos.
Depois vou sujando. Com muito gosto.
Deixo peças na sala e louças sujas na pia.
Não na mesma hora mas um pouco
Bastante depois volto limpando.
Assim me faço.
Nos objetos que me acompanham.
Gosto de andar nas ruas e comprar coisas
Que vão se arrumando em torno de mim.
Tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas.
Uma camada de livros outra de sapatos.
Tem a camada de plantas. E toalhas de rosto.
Tenho camadas de cosméticos e de adereços.
Uma camada de nomes e de coisas que vejo.
Tudo ordenado ao meu redor. Em forma de corpo.
Um corpo que me sustenta quando o meu próprio me falta.
Cadeiras são meus ossos. Sapatos são meus braços.
Torneiras em meus poros. Paredes como roupas de inverno.
(Quando toca música em minha casa sai do umbigo)
Descanso recostada nas paredes da casa
Que me guardam como um abraço.
Me abraço quando me derramo na sala.
E na cozinha. Em geral adormeço no quarto.
Tudo em minha casa tem existência.
Todas as coisas significo.
Com os olhos. Ou com as mãos.
Minha casa tem silêncios
Que ás vezes ouço. Em meu corpo
Tem silêncios maiores ainda.
Que às vezes ouço. E faço poemas.
Faço poemas dos silêncios que ouço. 
(Viviane Mosé)

Lágrima


A maioria das doenças
Que as pessoas têm
São poemas presos
 
Palavra boa é palavra líquida
Escorrendo em estado de lágrima
Lágrima é dor derretida.
(Viviane Mosé)

Eu e o outro


Eu existo,
fora de mim e por toda parte do mundo;
não há uma polegada sequer de meu caminho
que não se insinue num caminho alheio.

(Simone de Beauvoir)

Fases


Minha vida... se divide em três fases.
Na primeira,
meu mundo era do tamanho do universo e era habitado por deuses,
verdadeiros e absolutos.
Na segunda fase meu mundo encolheu,
ficou mais modesto e passou a ser habitado por heróis revolucionários
que portavam armas e cantavam canções de transformar o mundo.
Na terceira fase,
mortos os deuses,
mortos os heróis,
mortas as verdades e os absolutos,
meu mundo se encolheu ainda mais
e chegou não à sua verdade final
mas à sua beleza final:
ficou belo e efêmero como uma jabuticabeira florida.
(Rubem Alves)

Felicidade


A felicidade é um susto.
Chega na calada da noite, na fala do dia, no improviso das horas.
Chega sem chegar, insinua mais que propõe...
Felicidade é animal arisco.
Tem que ser admirada à distância porque não aceita a jaula que preparamos para ela.
Vê-la solta e livre no campo,
correndo com sua velocidade tão elegante é uma sublime forma de possuí-la.
(Pe. Fábio de Melo)

Parada cardíaca


Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.
(Paulo Leminsk)

Desperta teus sentidos
para que não percas
tudo de belo e formoso
que te cercas.
Apaga a cinza de tua vida
e acenda as cores
que carrega dentro de ti.
(Plablo Picasso)

Renovação


Sim, é verdade,
estou feliz
mas isso não significa
que não deva
ohar pros lados
e que precise
acordar todo dia à mesma hora
sim, a princípio nada me falta
mas não preciso viver em função disso
deixar de querer um pouco mais
e trocar os meus desejos
por outros que não lembro agora
sim, que me conste, eu estou bem
mas o espelho não é o mesmo todo dia
já não gosto tanto assim dos meus desenhos
e hoje não vou comprar morangos
e sim abacates, uvas e amoras
sim, pra que negar, estou alegre
mas não vou me conformar com calmantes
nem me embriagar de satisfação
não quero a morte lenta, exijo a renovação.
(Martha Medeiros)

Falta


Se só me faltassem os outros, vá,
um homem se consola mais ou menos das pessoas que perde,

mas falto eu mesmo,
e essa lacuna é tudo. (Machado de Assis)

Amar o inútil


É preciso amar o inútil.
Criar pombos sem pensar em comê-los,
plantar roseiras sem pensar em colher rosas,
escrever sem pensar em publicar,
fazer coisas assim, sem esperar nada em troca.
A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta,
mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas da vida.
A música. Este céu que nem promete chuva.
Aquela estrelinha nascendo ali... está vendo aquela estrelinha?
Há milênios não tem feito nada, não guiou os reis magos,
nem os pastores, nem os marinheiros perdidos... apenas brilha.
Ninguém repara nela porque é uma estrela inútil.
Pois é preciso amar o inútil porque no inútil está a beleza.
(Lygia Fagundes Telles)

A viagem


A viagem não acaba nunca.Só os viajantes acabam.
E mesmo estes podem prolongar-se em memória,
em lembrança, em narrativa.
Quando o visitante sentou na areia da praia e disse:
“Não há mais o que ver”,
saiba que não era assim.
O fim de uma viagem é apenas o começo de outra.
É preciso ver o que não foi visto,
ver outra vez o que se viu já,
ver na primavera o que se vira no verão,
ver de dia o que se viu de noite,
com o sol onde primeiramente a chuva caía,
ver a seara verde, o fruto maduro,
a pedra que mudou de lugar,
a sombra que aqui não estava.
É preciso voltar aos passos que foram dados,
para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles.
É preciso recomeçar a viagem.
Sempre. (José Saramago)

Amor que atingiu sabedoria


Quanto mais envelhecia,
quanto mais insípidas me pareciam as pequenas satisfações que a vida me dava,
tanto mais claramente compreendia
onde eu deveria procurar a fonte das alegrias da vida.
Aprendi que ser amado não é nada, enquanto amar é tudo.
O dinheiro não era nada, o poder não era nada.
Vi tanta gente que tinha dinheiro e poder, e mesmo assim era infeliz.
A beleza não era nada.
Vi homens e mulheres belos, infelizes,
apesar de sua beleza.
Também a saúde não contava tanto assim.
Cada um tem a saúde que sente.
Havia doentes cheios de vontade de viver
e havia sadios que definhavam
angustiados pelo medo de sofrer.
A felicidade é amor, só isto.
Feliz é quem sabe amar.
Feliz é quem pode amar muito.
Mas amar e desejar não é a mesma coisa.
O amor é o desejo que atingiu a sabedoria.
O amor não quer possuir.
O amor quer somente amar.
(Hermann Heese)

Eu preciso


Os outros eu conheci
por ocioso acaso.

A ti vim encontrar
porque era preciso.
(Guimarães Rosa)

Última página


Mais uma vez o tempo me assusta.
Passa afobado pelo meu dia,
atropela minha hora,
despreza minha agenda.
Corre prepotente a disputar lugar com a ventania.
O tempo envelhece e não se emenda.
Deveria haver algum decreto que obrigasse o tempo a desacelerar e a respeitar meu projeto.
Só assim, eu daria contados livros que vão se empilhando,
das melodias que estão me aguardando,
das saudades que venho sentindo,
das verdades que eu ando mentindo,
das promessas que venho esquecendo,
dos impulsos que sigo contendo,
dos prazeres que chegam partindo,
dos receios que partem, voltando.
Agora, que redijo a página final,
percebo o tanto de caminho percorrido ao impulso da hora que vai me acelerando.
Apesar do tempo e sua pressa desleal,
agradeço a Deus por ter vivido,
amanhecer e continuar teimando.
(Flora Figueiredo)

Eu


Eu? Eu não sou somente boa.
Sou uma pessoa muito bonita.
Generosa e linda – e quem aguentar, aguentou.
Como prêmio, terá meu amor.
Saberá da minha verdade.
Dará boas gargalhadas.
Mas terá que suportar uma boa dose daquilo que sinto.
Pois, apesar de tudo ser diversão, nada é simples.
Nada é pouco quando o mundo é meu.

(Fernanda Young)